Da alegria

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A alegria é a mãe de todas as virtudes.
(atribuído a Goethe)

Um dia me explicaram o hassidismo como um tipo de corrente dentro do judaísmo que teve como característica entender que a Deus se chegava pela alegria. Não sei se a explicação era pertinente, mas pareceu uma das coisas mais bacanas já ouvidas em matéria de religião (talvez fosse mais exato dizer mística, no caso?) O fato é que até hoje isso soa como poesia. Vai uma garimpagem de lendas poéticas sobre o que teriam dito ou feito alguns hassidim em relação com a tristeza e a alegria.

TODAS AS ALEGRIAS

Disse o Rabi Pinkhas: – Todas as alegrias vêm do paraíso, mesmo um gracejo, quando pronunciado com alegria verdadeira. (p. 177)

A DANÇA DOS HASSIDIM

Na festa de Simhat Torá, divertiam-se os discípulos na casa do Baal Schem; dançavam e bebiam, e faziam subir sempre mais vinho da adega. Depois de algumas horas, a mulher foi procurar o Baal Schem em seu quarto e disse-lhe:  – Se não pararem de beber, logo logo não sobrará mais vinho para a sagração do sabá. – Rindo, ele respondeu: – Dizes bem. Vai ter com eles, e manda-os parar. – Ao abrir a porta da sala grande, ela viu os discípulos dançando em roda, e em volta do círculo serpeava, chamejante, um anel de fogo azulado. Então ela mesma tomou de um jarro na mão direita, de outro na esquerda e, afastando a criada, desceu à adega, voltando depressa com os jarros cheios. (p. 99)

PECADO E MELANCOLIA

Um hassid queixava-se ao Rabi de Lublin de que era torturado por maus apetites e que por isso caíra em melancolia. O Rabi lhe disse: – Acima de tudo, guarda-te da melancolia, porque ela é pior e mais funesta que o pecado. O que o Espírito do Mal tem em mente, quando desperta os apetites no homem, não é mergulhá-lo no pecado, porém mergulhá-lo, através do pecado, na melancolia. (p. 356)

DEUS E A ALEGRIA

Está escrito [1]: “Será porém que, se de qualquer sorte te esqueceres do Senhor teu Deus”. Comentou o Rabi de Rijin: – É sabido que a fórmula “será porém”, quando ocorre nas Escrituras, se refere à alegria. Também nesse caso o sentido é idêntico. É-nos revelado: “Se te esqueceres da alegria e te deprimires, estarás esquecendo o Senhor, teu Deus”. Pois está escrito: “Força e alegria no Seu lugar!” [2]. (p. 376)

COM AS CRIANÇAS

Quando o Rabi Davi de Lelov chegava a uma cidade, costumava reunir todas as crianças, e a cada uma ele dava uma apito, depois as punha todas na grande carreta em que viajava e as passeava por toda a cidade. As crianças apitavam com o máximo de suas forças, incessantemente, e o Rabi Davi se torcia de rir, sem cessar. (p. 509)

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PARA QUE A ALEGRIA?

A propósito do versículo do salmo [3]: “Alegra o coração do teu servo, porque a Ti, Senhor, elevo a minha alma”, observou certa vez o Rabi Mordehai: – “Alegra o coração do teu servo”, por que a alegria? “Porque a Ti, Senhor, elevo a minha alma”, é na alegria que posso elevar a Ti meu coração. (p. 473)

PARA A ALEGRIA DOS OUTROS

Uma vez mais os mitnagdim riam do Rabi de Lekovitz. Ele rebateu os risos apenas com um sorriso e disse: – Deus não criou um único ser no mundo que não desse alegria a outros seres. Também a mim Ele criou para a alegria dos outros; dos meus próximos, pois a minha proximidade lhes faz bem, e de vós, pois podeis rir de mim. – Os mitnagdim o ouviram e ficaram sombrios. (p. 475)

TRISTEZA E ALEGRIA

   Quando o Rabi Mosché Teitelbaum se tornou discípulo do Vidente, provou por algum tempo o modo de viver dos hassidim e aprazeu-se nele. Mas um dia surgiu uma pergunta em seu coração. Observou como eles estavam sempre alegres, efetuavam todo o trabalho com alegria, andavam e repousavam em alegria, oravam em alegria exaltada e então lembrou-se das palavras contidas no Caminho da Vida [4]: “A todo homem temente a Deus convém alimentar a tristeza e luto pela destruição do Templo”. Por isso, a dúvida apossou-se dele, quando se encontrava a caminho da casa do Rabi de Lublin. Todavia, dominou-a e orou a Deus: – Senhor, Tu conheces os meus pensamentos e sabes que é minha vontade que os meus olhos não se atrevam a perceber injustiça no que é justo. Por isso, permanece comigo e ajuda-me para que o meu mestre, quando eu chegar a ele, silencie a minha dúvida. Pois assim dizem os nossos sábios [5]: “Àquele que vier para se purificar, eles o ajudarão”.
E assim demorou-se em prece e se aconselhou com Deus, até que chegou a Lublin. Quando atravessou a soleira da porta do Rabi Iaakov Itzhak, este lhe falou: – Por que o teu semblante está sombrio hoje? É verdade que consta do livro das leis que a todo homem temente a Deus convém alimentar tristezas e luto pela destruição do Templo. Mas acredita, nós também proferimos o lamento da meia-noite por Jerusalém com pranto e clamor e no entanto tudo acontece com alegria. Conheces a história do rei que foi desterrado? Ele errou durante muito tempo, até que encontrou abrigo com um dos seus amigos. Esse homem fiel sentia ganas de chorar toda vez que recordava que o rei fora banido do seu reino. Ao mesmo tempo, entretanto, alegrava-se porque o rei morava em sua casa. Meu querido, a Schehiná banida fez conosco a sua morada. Eu não poderia falar do segredo, porque nos é ordenado guardar a coisa divina em silêncio; mas os nossos sábios disseram: “Àquele que vier se purificar, eles o ajudarão”. “Eles”, é o que se diz e não “ele”. É dos homens que se fala. (p. 511-12)

O CONTADOR DE HISTÓRIAS

Muitas versões relatam como o Baal Schem conquistou como discípulo o Rabi Iaakov Iossef, antigo Rav de Polnóie. Há histórias milagrosas, que vão até ao despertar dos mortos. Conto aqui partes de versões diversas, que se completam.

   No tempo em que o Rabi Iaakov Iossef ainda era Rav de Zarigrod, e muito avesso à trilha hassídica, certa manhã de verão, à hora em que se tange o gado para as pastagens, chegou à sua aldeia um homem, que ninguém conhecia, e parou com seu carro na praça do mercado. Ao primeiro que viu levando uma vaca, chamou e começou a contar-lhe uma história, e tanto se agradou dela o ouvinte, que não conseguiu desprender-se do lugar. Outro que passava captou algumas palavras, quis continuar, não conseguiu, parou e ficou ouvindo. Logo, à volta do narrador reunia-se todo um grupo, que crescia mais e mais. Em meio deles se achava o bedel da sinagoga, que passara a caminho da casa de orações para abri-la, porque no verão, às oito horas, costumava o Rav ali rezar, e já bem antes, ás sete, devia ela estar aberta. Às oito, chegando o Rav à sinagoga, encontrou-a fechada, e como era de caráter meticulosos e colérico, saiu, cheio de ira, à procura do bedel. Mas já o tinha diante de si, pois o Baal Schem – era ele o contador de histórias – mandara-0 embora com um sinal, e o bedel saíra correndo, para abrir a sinagoga. O Rav gritou com ele, perguntando por que descuidara de seu dever, e por que não haviam vindo os homens que a essa hora costumavam ali estar. O bedel explicou que, como ele, todos os outros, a caminho da sinagoga, haviam sido atraídos irresistivelmente pela grande história do contador. O irado Rav foi obrigado a dizer sozinho as matinas. Mais tarde, porém, ordenou ao bedel que fosse ao mercado e voltasse com o estranho. – Mandarei dar-lhe uma boa tunda! – gritava. Entrementes, tendo acabado a história, dirigira-se o Baal Schem ao albergue. Foi aí que o encontrou o bedel e lhe transmiu-lhe o recado.
O Baal Schem não se fez esperar; fumando seu cachimbo, apresentou-se ao Rav. Este o recebeu aos berros: – Que ideia é essa de impedir as pessoas de irem orar? – Rabi – repondeu o Baal Schem calmamente – não vos fica bem tamanha ira. Deixai-me antes contar-vos uma história. – Mas que ideia! – quis gritar o rabi, mas então, pela primeira vez, olhou bem para ele. É verdade que imediatamente desviou o olhar, mas as palavras ficaram-lhe presas na garganta. Àquela altura, o Baal Schem já havia começado a sua história, e como todos os outros, também o Rav teve de ouvir.
– Por outras terras viajei, certa feita, com três cavalos – contou o Baal Schem – um castanho, um malhado e um branco. E nenhum dos três relinchava. Então cruzei com um camponês, que me disse: – Afrouxai as rédeas! – afrouxei as rédeas. E os três começaram a relinchar. – O Rav, impressionado, calava. – Três – repetiu o Baal Schem – castanho, malhado, branco, e nenhum relincha; o camponês sabe, afrouxai as rédeas, e começam a relinchar! – Cabisbaixo, o Rav não dizia nada. – O camponês deu um bom conselho – disse o Baal Schem – compreendeis? – Compreendo – respondeu o Rav, e rompeu em lágrimas. Chorou e chorou e percebeu que até então não compreendera o que quer dizer: o homem é capaz de chorar. – É preciso elevar-vos – disse o Baal Schem. O Rav levantou os olhos para ele, mas já não mais o viu.

Todo mês, o Rabi Iaakov Iossef jejuava uma semana, de sábado a sábado. Como sempre tomasse as refeições em seu quarto, ninguém sabia disso, exceto a sobrinha que lhe levava a comida. No mês seguinte ao seu encontro com o Baal Schem, jejuou como sempre, porque nunca lhe ocorrera que se pudesse chegar à altura prometida sem mortificação. O Baal Schem encontrava-se outra vez numa de suas viagens, quando de súbito sentiu: se o Rav de Zarigrod prosseguir em sua obra, perderá o juízo. Mandou incitar os cavalos, e tanto que um deles tropeçou e quebrou a perna. Ao entrar no quarto do Rav, contou: – Porque eu tinha pressa de chegar aqui, meu cavalo branco foi ao chão. As coisas não podem continuar assim. Mandai trazer algo para comer. – O Rav ordenou que lhe trouxessem comida e comeu. – Isso é obra apenas da tristeza – disse o Baal Schem; – a Schehiná não paira sobre a tristeza, mas sobre a alegria de orar.

No mês seguinte estava o Rav em Mesbitsch no klaus do Baal Schem, lendo um livro, quando entrou um homem e logo entabulou uma conversa com ele. – De onde sois? – perguntou. – De Zarigrod – respondeu o Rav. – E qual o vosso ganha-pão? – continuou o homem a indagar. – Sou o Rav da cidade – disse o Rav Iaakov Iossef. – E como se vive? – continou o outro – bem ou mal? – O Rav não suportou mais a conversa fiada. – Estais me impedindo de estudar – disse, em tom impaciente. – Se vos irritais assim – replicou o outro – tirais dos ganhos do Senhor. – Não vos compreendo – disse o Rav. – Bem – respondeu o homem – cada qual tem seu ganho, que provém do lugar que Deus lhe designou. Mas quais são os ganhos de Deus? Está escrito: “E tu, Santo, estás sentado sobre os cânticos de louvor de Israel”. Eis os ganhos de Deus. Quando dois judeus se encontram e um deles pergunta ao outro quais são seus ganhos, este explica: “Louvado seja Deus, são tais e tais”, e seus louvores são os ganhos de Deus. Mas vós, por não falardes com ninguém e só quererdes estudar, tirais dos ganhos de Deus. – Impressionado, quis o Rav argumentar, mas o homem desaparecera. Tomou novamente do livro, mas não conseguiu estudar. Fechou o livro e entrou no quarto do Baal Schem. – Então, Rav de Zarigrod – disse ele sorrindo – Elias acabou vencendo-te, não foi?

Ao voltar o Rav para casa, convocou a comunidade para a terceira refeição do sabá, segundo o costume hassídico. Alguns foram, à maioria porém desagradou ter-se ele ligado aos charlatães hassídicos. Malquistaram-no mais e mais violentamente, até que ao fim conseguiram expulsá-lo da cidade e não lhe permitiram permanecer sequer um dia a mais em sua casa, e como era sexta-feira, precisou passar o sabá numa aldeia vizinha. O Baal Schem estava viajando com alguns de seus íntimos e naquela sexta-feira achava-se próximo da aldeia em questão. – Vamos passar o sabá com o Rav de Zarigrod – disse – e alegrar-lhe o coração. – E assim foi.
Pouco depois tornou-se o Rabi Iaakov Iossef Rav da cidade de Roskov. Mandou espalharem, por longe e por perto, que estava restituindo todas as multas que cobrara, e que não eram poucas. Não descansou enquanto não distribuiu todo o seu dinheiro.
Desde então dizia sempre: – A preocupação e a tristeza são as raízes de todas as forças malignas. (p. 102-104)

CONTRA A MELANCOLIA

O Rabi Bunam explanava: – Diz o salmo [6]: “Sara os quebrantados de coração”. Por que nos é dito isso? Possuir um coração quebrantado e ser obsequioso a Deus é uma virtude, como está escrito [7]: “Os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado”. Mas o salmo continua: “e liga suas feridas”. O senhor não cura totalmente os quebrantados de coração, mas apenas de modo que seus sofrimentos não se convertam numa melancolia ulcerante. A melancolia é uma má qualidade e desagrada a Deus. O coração quebrantado prepara o homem para servir a Deus, a melancolia corrói o serviço. Cumpre distinguir bem entre os dois, como entre alegria e animação; é tão fácil enganar-se, mas elas se acham tão distantes uma da outra como as duas extremidades do mundo. (p. 587-88)

BUBER, Martin. Histórias do Rabi.  As histórias hassídicas de Martin Buber.
São Paulo: Perspectiva, 1967.

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[1] Deuteronômio, 8:19
[2] I Crônicas, 16:27
[3] Salmos, 86:4
[4] Um tratado da codificação legal Shulhan Aruch.
[5] Um dito talmúdico (Iomá 38b)
[6] Salmos, 147:3
[7] Salmos, 51:17

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Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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