Relâmpagos de Xangô em terra de Tupã



“Querem cortar até nossa língua. Não podemos nos defender na nossa língua. Não é assim que se faz. Peço que levem isso ao povo de vocês”, diz a representante Kaiowá. 

E você se pergunta, não apenas qual é a política para integração dos povos indígenas no tecido do país em geral, mas até mesmo qual vem sendo a política linguística. No Paraguai, o guarani é também língua oficial. No Peru e na Bolívia, o quechua e o aimará são também línguas oficiais. São ensinadas nas escolas. Não sei se o como é o bastante, sei apenas que são. Da fala da representante Kaiowá emerge o tamanho da violência também linguística. Simbólica, portanto.

Diz Shirley Campbell-Barr, mulher negra e ativista, que quem sofre com discriminação não quer ser “tolerado”, quer ser, no mínimo, aceito. Eu diria que quer ser dignamente humano, quando não se possa contar com acolhimentos recíprocos afetuosos.

Culturas diversas no mesmo espaço se “toleram”, competindo, intercambiando olhares tortos e farpas, enquanto os poderes oficiais lhes coibe o intercâmbio de outas violências: multiculturalidade?

Culturas diversas compartilham o espaço dialogando, intercambiando saberes e visões de mundo com respeito: interculturalidade.

A utopia a perseguir não é a multiculturalidade, mas a interculturalidade. Elas não são a mesma coisa, propõe Shirley Campbell-Barr. Melhor vê-las como coisas muito diferentes.

E, no fim das contas, qualquer indivíduo é intrínseca e dinamicamente intercultural.

A multiculturalidade não supõe equilíbrio de condições de existência. E a interculturalidade deveria conquistá-lo.

Territórios híbridos: “Não é colocar lado a lado. É permitir novos processos a partir do reconhecimento da diversidade”, diz Marcelo Tramontano.

“Os territórios híbridos não podem se limitar com barreiras estanques, mas com membranas permeáveis”.

Territórios rede: “Intensamente interconectados entre si, oscilando entre o local e o global”.

A ocupação deveria ser de “compartilhamento e não de tomada por um grupo social”.

“Sempre que um Território é delimitado, como condomínios, surge o desinteresse pelo externo.”

Um pensamento que mude para a coexistência das diferenças.

O poder público não vai enfrentar a questão do uso e ocupação do solo sem intensa pressão coletiva. Nem na cidade, nem na floresta, nem no campo.

Talvez nem sempre porque não queira. A força do agronegócio, dos pecuaristas, das empreiteiras, dos donos de territórios no patrimonialismo, enfim, não é apenas imensa, é criminosa, brutal e assassina. Na cidade, na floresta, no campo.

É também sorrateiramente articulada para a tomada dos lugares oficiais: tribunais, senados, câmaras de deputados, de vereadores. Governos de Estado. Prefeituras. Não há ação ingênua possível contra isso. Seria preciso a mais absoluta inteligência coletiva. Não sei como.

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Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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