Brasil: mulheres na política

Quando comecei a considerar em quem votar para a prefeitura e câmara municipal em 2012, e a tentar observar o que estava acontecendo em outras cidades, senti um incômodo com o que conseguia ver do PSOL. Ou melhor, com o que não conseguia ver: mulheres saindo como candidatas e tendo visibilidade dentro desse partido. O incômodo era grande devido a uma antiga sensação de que isso nunca acontece por acaso, mas é sinal de que o partido pode ter uma peneira, aquela ancestral história de “tecer com fios de vidro o teto invisível que impede as mulheres de atingirem os lugares mais altos”. Esse também é um dos motivos que me levam a uma sensação um pouco mais favorável com relação ao PT. Vou procurando lembrar de algumas mulheres que chegaram a ter visibilidade na política do país, nos últimos anos: Luiza Erundina, Marta Suplicy, Marina Silva, Telma de Souza (Santos), Benedita (RJ), Heloísa Helena, Dilma Rousseff… Mesmo as que deixaram o PT, vieram de lá, e se projetaram quando estavam lá. Isso para mim é indicador de que internamente o partido tem ambiente menos restritivo para as mulheres. Agora, o PT está contribuindo para projetar uma pessoa que vou ouvindo com interesse e entusiasmo: Nadia Campeão, do PCdoB, vice de Fernando Haddad. Ela tinha sido da Secretaria de Esportes na gestão da Marta Suplicy (PT). Nos últimos anos, tenho encontrado alternativas interessantes de candidatas a vereadora em quem votar dentro do PT. Esse tem sido critério, para mim, já há várias eleições, embora tenha, desta vez, me guiado por outro parâmetro: queria alguém urbanista, com criatividade nessa área, e que também estivesse se manifestando a respeito de fazer frente à especulação imobiliária, compartilhando a minha visão de que o problema da moradia e do uso e ocupação do solo é o que mais afeta a vida de uma pessoa, impacta fortemente sobre saúde (física e mental), educação, capacidade de trabalho, socialização, mobilidade, tudo, e de que a selvageria de uma subida de 160% no valor dos imóveis contra 20% a 30% na renda da população desde janeiro de 2008, é praticamente um decreto de trabalho escravo: trabalhar para jogar todo o seu salário em aluguel, provavelmente numa caixa de sapatos mal projetada e em lugar inóspito, numa situação análoga à do trabalho escravo dos antigos imigrantes no campo, à situação dos seringueiros narrada por Chico Mendes, que trabalhavam para deixar todo o ganho de seu trabalho nas mãos de outros, e mesmo assim terminavam endividados. Então abandonei temporariamente o critério dos anos anteriores de votar numa mulher, fiquei entre Gilberto Maringoni (PSOL) – formado em Arquitetura e Urbanismo e em História Social, apoiado pela Ermínia Maricato, com campanha mais enfaticamente focalizada na questão da especulação imobiliária – e Nabil Bonduki (PT) – professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, apoiado pela Raquel Rolnik (relatora especial da ONU para moradia adequada), com participação na área tanto na gestão da Erundina quanto na elaboração do programa de governo do Haddad. Saí para votar com os dois números anotados, ainda decidindo no caminho, e acabei optando por Nabil Bonduki, um pouco porque tem mais formação e experiência de trabalho como urbanista, um pouco para recuperar algo do critério de votar numa mulher para vereadora, no seguinte sentido: escolher o partido que eu percebia estar abrindo mais espaço para mulheres. Mas eu dizia que nos últimos anos venho encontrando alternativas interessantes de mulheres em quem votar para vereadora no PT. Como havia decidido que desta vez o critério seria outro, observei menos, é verdade, mas não vislumbrei algo comparável no PSOL. Enfim, pode ser, sim, falta de informação. E parece que tinham uma boa candidata à prefeitura em Belo Horizonte. [PS: E acabo de ver esta vereadora eleita pelo PSOL em Fortaleza.] Daqui para frente, vou procurar observar melhor como é que lidam e vão lidando com a questão da candidatura de mulheres. Gostei muito da entrevista a José Eustáquio Diniz Alves, logo abaixo, porque me dá mais segurança de que não é sem fundamento a minha intuição de que a falta de visibilidade de mulheres na política tem relação com decisões dos partidos. (Embora me pareça que também deve haver uma série de filtros sociais anteriores que inibem a própria aproximação das mulheres da política, antes mesmo da entrada nos partidos.) Do PSDB, não tem nem o que dizer. Parece a Bíblia: fez história no apagamento absoluto de mulheres, que, quando aparecem, é na qualidade de mães, filhas ou esposas, preferencialmente fazendo futrico leviano relacionado a aborto (algum dia vai ter uma para lavar os pés de algum candidato e enxugar com os cabelos). Meu assombro ouvindo Levy Fidelix num dos debates foi imenso. Parecia impossível imaginar que alguém como ele tivesse qualquer chance de sair candidato à prefeitura, até pelo partido mais absurdo, se fosse mulher. Não era capaz de articular uma frase inteligível. Muita gente achou graça. Não consegui sequer manter o humor tendo perdido tanto tempo ouvindo aquele ser balbuciando alguma coisa em algum dialeto da idade da pedra para dissimular que não tinha absolutamente nada a dizer: um enrolão cara de pau. Mesmo o Giannazi, que evidentemente está anos luz acima do Levy, com o perfil que tem, duvido bastante que tivesse tido espaço para sair candidato a prefeito se fosse mulher. Aliás, anos atrás senti o mesmo com relação ao Suplicy (que adoro), dentro do próprio PT, observando como se saía nos debates televisivos, na época em que foi candidato à prefeitura de São Paulo (derrotado pelo Maluf, logo após a gestão da Erundina). As malhas da peneira parecem bem mais estreitas para lançar candidaturas, quando se trata de mulheres.

O eleitorado não discrimina as mulheres. O exemplo mais claro disso apareceu nas eleições presidenciais de 2010, quando concorreram nove candidatos, dos quais sete eram homens. Ao final do primeiro turno, as duas mulheres conquistaram 67% do total dos votos. O problema está no controle dos partidos. São os homens que controlam os principais cargos, os recursos partidários e o processo de escolha de candidatos. O funil está na máquina partidária. Não existe nenhum partido no Brasil presidido por mulher. A Marina Silva, depois de obter quase vinte milhões de votos na eleição presidencial, foi praticamente forçada a se retirar do PV.

Caciques políticos discriminam mulheres nas eleições

Entrevista a José Eustáquio Diniz Alves por Roldão Arruda

Publicado no Estadão, em 09 de oububro de 2012.

De acordo com levantamento realizado pelo demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, neste ano foram eleitas 7.648 mulheres para as câmaras municipais de todo o País e outras 663 para as prefeituras. Na comparação com a eleição anterior, em 2008, isso representou um avanço. No caso das câmaras, elas passaram de 12,5% para 13,3% do total de cadeiras disponíveis. Nas prefeituras, a variação foi de 9,1% para11,8%.

Se a comparação for feita, porém, com a presença das mulheres no conjunto da população e com outros níveis de atividades, a variação foi medíocre. Qual a razão disso? Na entrevista abaixo, Alves, que é professor da Escola Nacional de Ciências Estatísticas, no Rio, afirma que os resultados refletem sobretudo a resistência dos caciques partidários à presença de mulheres na política. “O funil está nos partidos”, afirma.

Seu levantamento aponta um aumento da participação das mulheres. Dá para comemorar?

É um avanço. Mas ainda está muito aquém do se esperava, especialmente quando se considera que elas são a maioria da população e do eleitorado, conquistam cada vez mais espaço no mercado de trabalho, já ultrapassaram os homens em todos os níveis de educação e possuem uma esperança de vida mais elevada. Até nas Olimpíadas elas se destacam mais. Em Londres e Pequim conquistaram duas três medalhas do Brasil. Pode-se lembrar também que temos uma mulher na Presidência da República e que foi uma mulher, à frente do Tribunal Superior Eleitoral, que comandou o processo eleitoral deste ano.

Como é a situação em outros países?

Desde as recomendações da Conferência Internacional de Mulheres, em Pequim, em 1995, diferentes países começaram a estimular a presença de mulheres na política, especialmente por meio de cotas. Ocorreram avanços na maior parte deles. A média mundial de mulheres em cargos em câmaras federais hoje é de 23%. Na Argentina, em Cuba e nos países nórdicos chega a 40%. No Brasil, ainda é de 8,6%. É a pior situação da América do Sul.

A que atribui esses resultados?

Quando passou a vigorar a política de cotas para mulheres nas eleições, os partidos entenderam que bastava reservar para elas um número de vagas entre os candidatos, sem a obrigação de preenchê-las. Mais tarde, quando mudou a interpretação da lei, por imposição do TSE, eles passaram a lançar mulheres laranjas, donas de casa, secretárias e mães dos dirigentes partidários, muitas delas sem condições de competir, que estão ali só para preencher a cota obrigatória.

Como explica isso? Ao preconceito do eleitorado? À ideia de que mulher não vota em mulher?

O eleitorado não discrimina as mulheres. O exemplo mais claro disso apareceu nas eleições presidenciais de 2010, quando concorreram nove candidatos, dos quais sete eram homens. Ao final do primeiro turno, as duas mulheres conquistaram 67% do total dos votos. Ora, se os brasileiros são capazes de confiar a Presidência da Reopublica a uma mulher, porque não votariam nelas para cargos em prefeituras e câmaras municipais?

Qual seria então a razão dessa baixa representação?

O problema está no controle dos partidos. São os homens que controlam os principais cargos, os recursos partidários e o processo de escolha de candidatos. O funil está na máquina partidária. Não existe nenhum partido no Brasil presidido por mulher. A Marina Silva, depois de obter quase vinte milhões de votos na eleição presidencial, foi praticamente forçada a se retirar do PV.

E o caso da presidente Dilma Rousseff?

Ela só conseguiu ir adiante porque o Lula apoiou. Se fosse contar apenas com a estrutura do PT não teria saído como candidata. Foi um caso excepcional, que deixou o Brasil à frente dos Estados Unidos e França. Esses dois países, apesar de sua longa e importante tradição democrática, nunca elegeram uma mulher para o cargo de presidente.

Acompanhe o blog pelo Twitter – @Roarruda

“O preconceito se manifesta na hora da divergência. Se você é uma mulher que participa de acordo, não é muito saliente, não inventa moda, não faz a menor diferença se você é homem ou mulher. Mas na hora que você bate de frente, e na mídia esportiva é igual, o arsenal de golpes baixos é maior. Os homens, na pior das hipóteses, vão sair na porrada. A menos que um deles possa ser gay, que aí vai ganhar a pecha de “viado”. Mas no caso das mulheres, tem um puta de um repertório vasto. Ela pode ser perua ou baranga, vadia ou mal amada. É muito mais baixaria.” ~Soninha Francine~ (Entrevista na Marie Claire)

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Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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