Filosofia barata (ou não): um quase-conto com final pseudotranscedental

Num dia de outubro de 2012, alguém sentado no computador teve um surto de filosofia barata no Twitter. Conhecia Alberto Caeiro, e por isso não se alarmou. Se filósofos são homens doentes, o que dizer da psicologia e filosofia baratas dos conflitos cotidianos? Aquilo devia ser algum tipo de intoxicação alimentar mental, logo ia passar. Estranhamente se divertiu, no entanto, publicando e complementando os resultados abaixo:

Era uma vez alguém que me censurou pela rebeldia: “Ela só aprofunda o espinho”. Ainda não sei se concordo. Até hoje penso e repenso.

Era uma vez quem tentou me convencer do perdão: “Sádicos são também masoquistas. Querem ser punidos. Sem perdão, você faz o jogo deles.” (Oscar Quiroga)

Discordei: “Que sentido tem que a minha conduta dependa de fazer ou não o jogo de uma pessoa sádica? Se eu sinto que a presença de uma pessoa causa mal-estar, por que ficar na presença dela? O que, afinal, se entende por perdão?”

Era uma vez quem tentou me convencer do perdão: “O ressentimento faz mal a quem o alimenta. Vincula você espiritualmente à pessoa que lhe causou dano.” (Oscar Quiroga)

Era uma vez quem me ajudou a ver que “perdão” não é algo fácil de entender, nem algo que voluntariamente se possa controlar: “O esquecimento é o único perdão e a única vingança.” (Jorge Luis Borges)

Era uma vez argumentos fortes para não deixar de reagir: “Quem perdoa o lobo, condena as ovelhas”. “O perdão reforça o que há de pior nas pessoas.” (Aforismos que circulam por aí.) (PS: Dizem que Nelson Rodrigues disse: “Não se apresse em perdoar. A misericórdia também corrompe.” Seria dizer que não há verdadeira misericórdia no perdão?)

Houve quem acreditasse que a violência, uma vez manifesta, pode ser irreversível: “Imagine que há uma série de tribos vivendo juntas em paz. E uma das tribos, por alguma razão, em vez de viver em paz e harmonia, decide se armar e conquistar a tribo ao lado e escravizá-la. A tribo ao lado tem três opções. (1) Se eles fugirem, o paradigma da tribo violenta expande seu território. (2) Se eles se renderem e aceitarem a escravidão, o paradigma da tribo violenta expande seu território. (3) Se eles construírem armas para reagir, o paradigma da tribo violenta expande seu território. E isso continua até que o mundo inteiro se torne um lugar dominado por gente que constroi armas, ataca e escraviza outras pessoas.” (Ran Prieur)

Era uma vez quem esclareceu que não perdoar NÃO SIGNIFICA alternativamente ser cruel, ser violento ou provocar sofrimento. E que ferir quem feriu certamente não torna a pessoa que feriu melhor. (Marcos Rolim escrevendo sobre “justiça restaurativa”, em interpretação livre minha)

DISCERNIMENTO NECESSÁRIO. Vingança – tentar provocar no outro a mesma dor que suponho que essa pessoa me provocou, aniquilar uma pessoa como ser humano – não é o mesmo que justiça – não aceitar uma acusação descabida, buscar reparação por um dano, afastar-se de quem se relaciona desrespeitando, ferindo, invadindo, apropriando-se do que não lhe pertence, depreciando, humilhando, ignorando, exigindo de você coisas que não está disposta a oferecer equilibradamente a você, etc. E por isso, o seguinte também é verdadeiro: se reajo a algo que não considero justo, aceitável ou digno, isso não é necessariamente vingança nem revanchismo. Importante não confundir. (Pena que quem tem decidido sobre as violações de direitos humanos da ditadura militar no Brasil faça de conta que isso não é suficientemente claro.)

Era uma vez quem me elucidou o justo: “Generosos incentivam egoístas e folgados. Não é bom. Justiça está no equilíbrio e na reciprocidade.” (Flávio Gikovate) Nada de oferecer sempre a outra face, portanto.

Era uma vez quem me elucidou o justo: “Não faça aos outros o que não quer que façam a você, mas também não considere normal e pacífico que os outros façam a você o que você não faria a eles.” (Flávio Gikovate, em interpretação livre.)

Era uma vez quem explicitou que o que é “bom” pode não ser tão simples: “Nem sempre o que vejo como bom para a outra pessoa é o que ela vê como bom para ela. Por exemplo: há quem se ache no direito de forçar a aceitação de sua afeição ou até a reciprocidade dela. Ninguém é obrigado a corresponder ao amor, à amizade ou à simpatia de ninguém. Isso nem sequer está sob seu controle, não depende de sua vontade. Achar que é possível impor afeto assim é tirania.” (Flávio Gikovate, em interpretação livre)

Aonde esse enredo parece conduzir: Se minha presença ou minha manifestação parecem causar desconforto ou constrangimento, o afastamento não é uma delicadeza que faço à pessoa que se mostra desconfortável? Não é uma dignidade que devo a mim? O mundo não é grande o suficiente para que pessoas que não se valorizam ou não se apreciam reciprocamente não precisem se reunir nos mesmos espaços nem compartilhar tempo de suas vidas? O tempo diário não é exíguo demais para que o usemos convivendo com quem não gostamos de como nos trata ou que não gostam de como as tratamos? Ou com pessoas para quem parecemos ser, sem nenhuma intenção maldosa, insípidos, inodoros e incolores? (Ops. Isso não. Isso é característica de água, e água pode ser muito agradável… Hmmm… Inexistentes, enfim.)

Não vislumbro nada mais difícil do que a medida da justiça. Interna: ninguém pode apontar de fora. Imprecisa, talvez sempre fadada ao erro. Não acredito que isso nos exima, no entanto, de tentar.

Era uma vez quem tentou opor misericórdia e justiça: “Não quero justiça, mas misericórdia”. (Jesus, supostamente.)

Mas só conseguiu provocar estranhamento, como uma língua que não entendo: Que misericórdia pode haver onde não houver justiça? Como é possível chamar de “justiça” algo que não abarque misericórdia? (Assumo a inteira (ir)responsabilidade pela autoria). (PS: Até me pergunto se aquele suposto dito de Jesus não sofreu algum problema de tradução. Será que, em vez de “justiça”, estava-se falando de “dureza”, ou da máxima da lei de Talião: olho por olho, dente por dente?)

“Habla cristiano”, dizia em tom de brincadeira um mexicano que uma vez conheci, quando não  entendia em português e queria que lhe explicassem em espanhol. Dada minha dificuldade de entender coisas como qualquer proposta de dissociação entre justiça, amor (caridade) e misericórida, ultimamente eu penso, numa brincadeira interior, fazendo um uso mais literal daquela expressão: por favor, se você quer que eu te entenda, “mejor no hablar cristiano”.

O que é agir bem? A noção de bondade parece tão cheia de nebulosidade, complexidade e ambiguidade, e o contorno do mal é tão dolorosamente nítido e simples.

Então chego a duvidar de quem disse que o mal é a ausência do bem, porque às vezes parece ser que é o conceito de bem o conceito negativo (definível pela ausência do “positivo-existente”),  e se definiria como ausência do mal.

SALTO INTERPRETATIVO-EXISTENCIAL (sobre a bondade inatingível). Todo ser vivo tem que destruir outros para sobreviver e não sentir dor. “Deus viu que era bom.” Sorry: bom para quem?

SUSPEITA DECORRENTE. Os seres vivos mais nobres e evoluídos são do reino vegetal. Só o reino mineral os supera em bondade. As melhores imagens de Deus seriam as de uma pedra, da água, ou do ar.  (Talvez isto tenha alguma inspiração budista?)

REVELAÇÃO FINAL. O ser humano parece ser o ser vivo mais vil. Deve ter sido criado para servir ao resto da Terra, principalmente aos vegetais e minerais, que são semelhantes a Deus. Mas algo deve ter dado tragicamente errado, sem que nem mesmo Deus entendesse por quê. (Já denunciava Borges.) Tão inepto saiu o ser humano, que passou a se autoglorificar como imagem de Deus (justo o ser que está mais distante disso!) Proclamou-se o rei da cocada preta e passou a servir a si mesmo, destruindo, multiplicando maciçamente a dor em tudo o que existe sobre a face da Terra. Talvez, na criação do ser humano, um erro de fórmula, na dosagem de vaidade, tenha dado esses resultados catastróficos. Deus, imagino, com sua autoestima no chão, retirou-se profundamente arrependido: “Como é que Eu fui botar tudo a perder no sexto dia? Morrer, assim, na praia?” Por isso é que ninguém sabe por onde Ele anda. Talvez esteja se embriagando, noite após noite, em algum boteco de alguma esquina de periferia.

ALERTA FINAL. Melhor não acreditar que eu ache mesmo que Deus existe (ou que não existe). Talvez a questão principal seja se algum deus daria alguma bola para o fato de nós existirmos.

Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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