Em quem eu voto

O livro que fez a cabeça de Fernando Haddad

Teoria e Debate nº 33 – novembro/dezembro de 1996/janeiro de 1997

 

por Fernando Haddad*, 31 de outubro de 1996

Uma resposta minha, sem preâmbulos, à pergunta sobre o livro que fez a minha cabeça só poderia despertar no leitor uma certa incredulidade. Mas foi justamente esta resposta improvável, ensaiada numa reunião do Conselho de Redação de T&D, que ensejou o convite para que eu a tornasse pública.

Sou filho de um camponês libanês que imigrou para o Brasil aos 22 anos, tornando-se comerciante, e que onze anos mais tarde casou-se com uma filha de imigrantes de mesma origem. Meu pai frequentou a escola até os 8 anos. Minha mãe teve mais sorte. Formou-se no curso normal do Liceu Pasteur, tendo inclusive aprendido a língua francesa. Casou-se com meu pai aos 20 anos para dedicar-se exclusivamente ao lar.

Lembro-me perfeitamente do primeiro livro que entrou em casa: a enciclopédia Delta Júnior. Pouco depois, a enciclopédia Conhecer. E, já na adolescência, um exagero: a Mirador Internacional. Essas enciclopédias, bem entendido, eram tidas como material complementar dos livros escolares: auxiliavam nos trabalhos que eram encomendados nos finais de ano letivo. Mas é possível que a formação francesa de minha mãe tenha contribuído para seu fascínio enciclopedista. Assim eu, curiosamente, até os 20 anos, não conheci nada que não fosse escolar e não li nada que não me fosse exigido. Cumpria as tarefas com profissionalismo: tinha um esplêndido boletim; e tinha um sonho conectado com a facilidade que demonstrava com a matemática e a física: tornar-me engenheiro.

Eis que, meses antes do exame vestibular, um cataclisma abalou minha família: meu pai, que encontrava-se em situação financeira difícil, foi envolvido numa trama muito bem urdida por um estelionatário, pondo a perder o único bem que lhe restara: sua própria casa. E esta inesperada condição de sem-teto fez-me prometer a mim mesmo que jamais passaria por uma situação similar. O caminho para isso dava no Largo de São Francisco, onde se encontra a velha Academia de Direito. E para lá eu fui.

E foi lá que finalmente conheci pessoas cujas cabeças já estavam feitas por livros dos quais eu sequer tinha ouvido falar. E como eu tinha um longo percurso a trilhar, resolvi escolher aquele livro que despertava as maiores paixões, mas que a quase totalidade das pessoas – disso, felizmente, só vim a saber mais tarde – não tinha lido e jamais leria. Meninos! Com a santa ingenuidade (ou envergonhada arrogância?) que há de me acompanhar pela vida eu escolhi como meu primeiro livro extracurricular nada mais nada menos do que O Capital, de um sujeito chamado Karl Marx. Isso mesmo! O Capital não apenas fez parte da minha coleção primeiros passos. Litetalmente, O Capital foi meu primeiro passo.

E, num certo sentido, único. Pois a leitura dos três longos livros que compõem essa obra causou-me um tal impacto que posso dizer que tudo que li depois tinha com ela uma conexão. Mas eu nunca perdi de vista o fato de que entre a publicação de O Capital e minha leitura havia transcorrido mais de um século, de maneira que meus interesses intelectuais não se restringiram nunca à literatura marxista, mas impeliam-me com muita energia a conhecer os principais críticos de Marx. Foi assim que, terminado o curso de Direito, pus-me a estudar economia, o que me levou a ingressar no programa de mestrado da Faculdade de Economia e Administração da USP, onde conheci os economistas neoclássicos, dentre os quais dois dissidentes extraordinários: Schumpeter e Keynes. Mas, foi na pesquisa das respostas que os marxistas deram ao desafio marginalista que conheci as formulações do professor Ruy Fausto, um filósofo, que obrigaram-me a uma nova leitura de O Capital, dessa vez um pouco menos superficial. A partir dessa segunda leitura, qualitativamente incomparável com a primeira, passei a interessar-me por filosofia e sociologia, mas ainda na perspectiva de conhecer o que havia de melhor na crítica a Marx. Finalmente, fui para a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Ingressei no programa de doutorado e, sob a orientação do professor Paulo Arantes, estudei a evolução do materialismo histórico, de Marx a Habermas, passando por Adorno, evolução marcada por um diálogo, muitas vezes cifrado, com os grandes teóricos não-materialistas, como Nietzsche e Heidegger, na filosofia, Weber e Durkheim, na sociologia. Conclui meu doutorado em agosto último: dia 9, porque dia XI de Agosto era domingo.

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Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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