O sonho narcísico e homossexual da civilização

As maravilhosas fantasmagorias do protagonismo feminino:
ou criancinha ou megera

Tenho dado boas risadas seguindo o Jornalismo Wando no Twitter, e de momento não tenho intenção de deixar de segui-lo. Mas foi inevitável notar uma peculiaridade no tratamento dado ali aos candidatos à prefeitura de São Paulo. Além de José Serra, um nefasto de carteirinha, apenas outro candidato é foco de ridicularizações sistemáticas, até mais frequentes. É a candidata, mulher.

As piadas relacionadas à Soninha são as mais numerosas. Mas não é só isso: além de ser alvo privilegiado, são piadas que a caracterizam como criancinha que não tem como ser levada a sério, como tantas vezes são os discursos a respeito da mulher. Tenho ouvido pouco os outros candidatos à prefeitura de São Paulo, com exceção do Haddad. Na verdade, acho que já ouvi o suficiente para não perder mais tempo com eles. Difícil sair alguma coisa interessante. Mas comento algo das minhas impressões de alguns outros. O Chalita parece uma fábrica desvairada de livros água-com-açúcar na área da educação. Há tempos vi uma entrevista dele no programa do Jô, apregoando uma polianesca “pedagogia do amor”. Minha impressão: difícil de ser levado a sério. Deve ter coisa mais madura no pré-primário. Russomano: alguém que, na candidatura a uma cidade que agoniza dramaticamente, como São Paulo, vir dizer que quer ver uma igreja em cada quarteirão, está ainda na primeira infância, fixado na fantasia de onipotência (do papai celete, nesse caso). Infelizmente, também não senti grandes maturidades de parte do candidato do PSOL, de quem assisti,  com bastante expectativa, uma longa entrevista, embora, ao contrário dos outros dois mencionados, pelo menos conserve meu respeito. Não votaria na Soninha, mas, no quesito maturidade, pontua consideravelmente melhor do que todos esses outros candidatos juntos. Mesmo o Haddad dá sua escorregadas: me pareceu bem infantil que entrasse no jogo de fazer propaganda política calcada na babaquice conservadora do “bom pai de família” e da família feliz. Não me transmite maturidade política ou humana reforçar estereótipos de que pessoas confiáveis e respeitáveis precisam ser casadas e ter filhos. Mas aí o comentário que vi, de uma pessoa muito pouco conservadora, foi “que bonito”, e como isso era sincero vindo dele. Por que, então, a Soninha é justamente a premiada com o rótulo de criancinha que, quando sai do Twitter, é porque “o amiguinho deve ter interfonado chamando para ir brincar”? Suspeito que a resposta é: porque é mulher. Nosso olhar aprendido culturalmente tem uma doentia dificuldade para deixar de enxergar mulheres como eternas criancinhas.

É verdade que parece haver uma alternativa. Nas eleições anteriores, o tom dominante das críticas à Marta Suplicy era ser arrogante. Na época, alguém publicou um artigo interessante falando de uma pesquisa. Se um homem é duro e cara-amarrada numa posição de liderança, isso é visto como positivo. Se uma mulher o é, isso é visto como negativo. Às mulheres em lugares de poder, qual é a saída? Será que a questão não é justamente essa: deixar as mulheres sem saída, se alguma vez saírem da invisibilidade? Se não tiverem atitudes carrancudas, serão “criancinhas”. Se fizerem o contrário, serão “prepotentes”. Se um homem se apresentasse como budista, vegetariano, ciclista, preocupado com ciclovias e como alguém que aposta intensamente nas redes sociais numa campanha, ele seria “sensível”, “alternativo”, “descolado” e “antenado”. Uma mulher na mesma situação, no caso a Soninha, é imatura. Um homem voluntarioso será louvado como “de personalidade forte”. Uma mulher, como a Marta, será “prepotente” e “destemperada”.

A última foi que alguém perguntou à Soninha se ela era amante do Serra. Ela respondeu laconicamente: “sim”. A pergunta em si já é de um veneno lascado: se você se projetou na política, deve ser porque é amante de um figurão. Outra perversidade a que frequentemente as mulheres se veem expostas: ver sugerido que, se conseguiram alguma coisa, é porque se escoraram em algum homem, normalmente “dando” para ele (fala se essa expressãozinha entre aspas não é detestável). O Renato Rovai, que eu sinceramente adoro de paixão, dedicou um artigo a escrachar a “irresponsabilidade” de ela ter dado a resposta que deu, sendo candidata. Aposto um dedo da mão em que, se um homem tivesse dado uma resposta irônica desse teor para uma pergunta desse teor (tudo bem: ninguém faria uma pergunta desse teor para um homem…), haveria grandes chances de ser louvado como “irreverente”, ou alguém que “não engole sapo”, ou outra coisa com sentido bem positivo. Ou então ninguém ia dar muita bola. Mas a Soninha é mulher. Então dá-lhe um artigo inteiro para colar nela a palavra “irresponsável”. Os ânimos e discursos parecem já estar pré-fabricados para tornar mulheres o alvo das principais atenções críticas negativas quando se atrevem a algum protagonismo em posições tradicionalmente reservadas para homens. Uma cilada em que não há saída. O estômago embrulha quando ouço alguém se referir a uma presidente da república como “Dona Dilma”, à prefeita de uma cidade como São Paulo como “Dona Marta”. Uma crítica a um homem pode ser até ser grosseira e minar sua dignidade, mas esse tom de quem olha de sua posição superior inata e diz subliminarmente: “ponha-se no seu devido lugar de dona-de-casa” é algo que só existe linguisticamente para mulheres. O rótulo de “arrogante” também é frequentemente aplicado à Dilma. Ninguém faria nada parecido ao perfil fake da “Dilma bolada” para o Lula. Mesmo com o virulento ódio de classe que ele sempre inspirou, o tom era outro: era a baixa escolaridade, era o “falar errado”. Existe um tom de deboche voltado à pesonalidade e à aparência exclusivamente reservado para mulheres. Ai de você, mulher, se, vencendo sutis e ostensivas, conscientes e inconscientes sabotagens recebidas desde a infância, ganhar alguma visibilidade. Se já não for possível neutralizar com os muros de indiferença e silêncio, relegar à inexistencia, ou aquilo que você faz à insignificância, os olhos podem se voltar para forjar oportunidades de um bombardeio crítico especialmente degradante, com deleite meio sádico. Os olhos tortos do mau-olhado. O olhar tendencioso introjetado (por homens e mulheres) não é mole não. Se infiltra “nas melhores famílias”, como sinaliza o texto de Jorge Forbes abaixo (na íntegra aqui).

A MULHER E O ANALISTA, FORA DA CIVILIZAÇÃO
Jorge Forbes

Fora da civilização

Começou como sempre, no começo. No Gênesis, quando Deus diz à mulher que levara o homem a comer o que não devia: “Multiplicarei teus trabalhos e misérias em tua gravidez; com dor parirás os filhos e estarás sob a lei de teu marido, e ele te dominará.”

De lá até aqui, numa longa e inacabada história, a lista de impropriedades sobre a mulher só fez crescer. Os autores, paradoxalmente, são da melhor qualidade. Encontrei num trabalho de Isidoro Loi, La mujer, algumas pérolas. Vejamos.

“Uma mulher estéril deve ser substituída no oitavo ano; aquela que perdeu todos os filhos, no décimo; a que só dá luz a filhas, no décimo primeiro; aquela que é azeda, imediatamente.” (Código de Manu, século XIII a.C.)

“A mulher é má. Cada vez que tiver ocasião, toda mulher pecará.” (Buda, 600 a.c.)

“As mulheres, os escravos e os estrangeiros não são cidadãos.” (Péricles, 450 a.c.)

Eurípedes, o dramaturgo, na mesma época: “Os melhores adornos de uma mulher são o silêncio e a modéstia.”

Um pouco depois, o pai da razão, Aristóteles, saía-se com esta: “A mulher é por natureza inferior ao homem; deve, pois, obedecer. … O escravo não tem vontade; a criança tem, mas incompleta; a mulher tem, mas impotente.”

“A mulher deve aprender em silêncio, com plena submissão. Não consinto que a mulher ensine nem domine o marido, apenas que se mantenha em silêncio.” (São Paulo, século I)

“Os homens são superiores às mulheres, porque Deus lhes outorgou a preeminência sobre elas. Os maridos que sofram desobediência de suas esposas, podem castiga-las: deixá-las sozinhas em seus leitos e até mesmo golpeá-las.” (Maomé, século VII)

“Para a boa ordem da família humana, uns devem ser governados por outros mais sábios do que eles; em decorrência, a mulher, mais débil em vigor da alma e força corporal, está sujeita por natureza ao homem, em quem a razão predomina. O pai há de ser mais amado do que a mãe e merecerá maior respeito, porque a sua concepção é ativa, e a mãe simplesmente passiva e material.” (Santo Tomás de Aquino, século XIII)

“Você não sabe que sou mulher? Quando penso, tenho de falar.” (Shakespeare, século XVII)

Epitáfio que o poeta inglês John Donne (século XVII) inscreveu na tumba de sua esposa: “Enquanto você repousa, eu descanso.”

“Ainda que o homem e a mulher sejam duas metades, não são nem podem ser iguais. Há uma metade principal e outra metade subalterna: a primeira manda e a segunda obedece.” (Moliere, século XVII)

“Uma mulher amavelmente estúpida é uma bendição do céu.” (Voltaire, século XVIII)

“A mulher pode, naturalmente, receber educação, porém, sua mente não é adequada às ciências mais elevadas, à filosofia e a algumas artes.” (Hegel, século XIX)

“Todas as mulheres acabam sendo como suas mães: essa é a tragédia.” (Oscar Wilde, século XIX)

“… de quem, de fato, aprendemos a volúpia, o afeminamento, a frivolidade total, e outros muitos vícios, senão da mulher? Quem é o responsável por perdermos tantos sentimentos inerentes a nossa natureza, como o valor, a fortaleza, a prudência, a eqüidade e tantos outros, senão a mulher?” (Tolstoi, século XIX)

“A mulher parece resolvida a manter a espécie dentro de limites medíocres, a procurar que o homem não chegue nunca a ser semideus.” (Ortega y Gasset, século XX)

Finalmente, Elias Canetti, búlgaro, Prêmio Nobel de Literatura de 1981: “Sua confusão era tal que começou a piorar mentalmente, como uma mulher.”

Basta. Saltando de século em século, do início da civilização até hoje, por meio desses flashes pinçados ao acaso, vemos uma impropriedade comum no tratamento da mulher, um conjunto de desaforos, literalmente, um conjunto de “fora de lugares”.

Historiadores, filósofos, teólogos, dramaturgos, políticos, enfim, a inteligência, os que pensam, pensam muito mal a mulher. Razões culturais, sim, não há dúvida, mas o que provoca essa quase desrazão cultural?

Falta à civilização, à cultura, um nome apropriado à satisfação feminina, à essência da mulher. Quando se tenta classificá-la, como vimos, é um desastre, acaba-se por degradá-la, mudar de grau. É diferente do homem que, este sim, encontra conforto nos braços da cultura e aí dormiria em berço esplêndido, se não fosse a mulher acordá-lo de seu sono narcísico e homossexual da civilização de tempos em tempos.

Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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