O poema escolhido

Y es que la Muerte se disfraza de Amor.
– Federico García Lorca, El maleficio de la mariposa

“Hoje, 76 anos do fusilamento de Lorca“, leio. “Hora de postar um segundo poema dele”, penso. Já estava planejado que o segundo poema do Lorca aqui seria aquele “do esquecimento”, da “fonte fria” e das “mãos brancas, distantes”, invocadas para deter as águas. E é engraçado que eu me lembrasse de boa parte do poema, mas não do título, nem do livro em que ele estava. Referências já cobertas pela teia da “aranha do esquecimento”. Faz alguns anos que tenho uma publicação dos poemas completos de García Lorca. Era ter paciência e começar a procurar. Arrisquei um palpite: Romancero gitano. Errado. O poema não estava lá. Agarro esse fio e começo a vasculhar a memória.

Quando comecei a ler Federico García Lorca, comecei pelos poemas. Acabei preferindo o teatro (que, no caso do Lorca, é também poesia: a poesia que se levanta das páginas e se faz humana, ele dizia algo assim). Não é que não tivesse gostado dos poemas. É que, se há algum problema em se encantar com Fernando Pessoa e Carlos Drummond de Andrade já na adolescência, é que depois você pode ficar um pouco chato para se entusiasmar logo com outros poetas, para se deixar levar por outras propostas e intenções poéticas. Lorca foi um gosto que se desenvolveu aos poucos, no conjunto que desenhava o seu sistema de imagens: as cores verdes, vermelhas e brancas, o enigmático simbolismo da lua, o sabor de Espanha andaluza, de cantares populares, canções de ninar, cantes jondos, ciganos com cavalos tocando o tambor da planície, os mergulhos no inconsciente (próprio e coletivo), os circos romanos nos subterrâneos, os cavalos brancos e pretos das pulsões de vida e morte, Eros e Tânatos, que talvez sejam diferentes fases da mesma lua. (Essa imagem dos cavalos, que está em El público, suspeita-se que ele derivou de um ensaio de Freud.) No teatro, a encenação mais social do sufocamento do indivíduo por uma moralidade coletiva doentia e autoritária, obcecada pela interdição do sexo, especialmente no caso das mulheres. No final, Lorca acabou de me conquistar quando disse que Sonho de uma noite de verão, comédia de Shakespeare, o impactou como uma doída revelação: o pó mágico que faz a rainha das fadas se apaixonar por um ser humano com cabeça de burro e vê-lo como a coisa mais encantadora do mundo, não tinha lhe parecido cômico, mas provocado um insight sobre uma trágica realidade irracional do amor. Imagine – ele convidava – se uma borboleta se apaixona por uma pedra (ou estrela?), que é um amor impossível; se ela é arrastada a isso como por um encantamento a que não pode resistir: essa será sua tragédia. Talvez estivesse nessa imagem a forma como ele percebia sua homossexualidade, que ele simplesmente não podia evitar, que ele tinha que manter nos subterrâneos e nas sombras, que pode ter sido decisiva para o seu assassinato. Além de tudo, você nunca sabe se o elfo não vai tirar o pó mágico dos seus olhos e aquele encantamento sumir, irrecuperável, de um instante para o outro, com você só conseguindo ver no antigo ser maravilhoso uma figura sem graça, com cabeça de burro. Talvez não cause dor em você, mas cause no outro. E mesmo que não seja a de nenhum dos dois, não deixa de ser uma perda trágica, um tipo especial de dor, aborrecer o que um dia se amou. Não será que, na essência, é amar o amor esse encantamento trapaceiro, inatingível e trágico? Uma das principais tragicomédias que representamos no palco da vida? Como marionetes sabe-se lá de quê forças subterrâneas? Estas últimas considerações não lembro se ele chegou a fazer, mas parecem também representadas na peça quase-infantil El maleficio de la mariposa. (Para não deixar ninguém pessimista demais sobre o amor com o post, remeto a este texto da Eliane Brum. Enfim, o Flávio Gikovate sustenta, muito convincentemente, que o encantamento amoroso não tem nada de tão irracional assim. O que é bonito e a faceta verdadeira do insight do Lorca parece ser que, no teatro interior, quando você se vê personagem de alguma tragédia desse tipo, há uma realidade interna de dor que pode assumir a cara da própria morte, embora depois, no geral, se sobreviva e isso passe, como um sonho ruim. Louvado seja o esquecimento, nesse caso, né, Borges?)

Quando comecei a ler os poemas de Federico García Lorca, me desafiaram com uma tarefa: escolher um (apenas um) poema. O título do livro Romancero gitano tinha despertado curiosidade especial e intuí que fosse sair desse livro o tal poema único que tinha que escolher. Mas não aconteceu. Não quis pegar nenhum dali, embora hoje o Romance de la luna luna seja um dos meus preferidos, e esteja lá. É por isso que a minha memória embaralha as coisas achando que o poema da teia do esquecimento estava no Romancero gitano. O Poeta em Nueva York, nem me lembro se li inteiro. Acho que tentei começar e logo de cara não entusiasmou muito, embora tivesse sido um dos mais recomendados. Um dia é preciso voltar, para ver se essa impressão se confirma. Nesse ponto das lembranças, a memória mandou a pista: eu tinha gostado do primeiro livro de poemas do Lorca. Palpite certo: o poema escolhido para aquele “desafio” estava nesse primeiro livro, publicado em 1921, aos 23 anos, e que se chama Libro de poemas. Já não lembro bem por que foi esse o poema selecionado, já que nem mesmo tenho memória do outros poemas de lá. Ele evocou uma imagem, surrealista como os quadros de Dalí, de que eu gostava muito, e até virou, nas minhas mãos, um desenho bobo com veleidades de surrealismo. Seria bom um dia recuperar esse desenho antigo, nascido do encontro com Lorca. Hoje me surpreende que o poema talvez tenha a ver exatamente com aquela interpretação trágica que Lorca fez de Sonho de uma noite de verão na adolescência, mas de que só fui saber vários anos depois de ter escolhido esse poema  (finalmente reencontrado agora), que se chama Sueño.

SUEÑO
Federico García Lorca, mayo de 1919

Mi corazón reposa junto a la fuente fría.

(Llénala con tus hilos,
araña del olvido.)

El agua de la fuente su canción le decía.

(Llénala con tus hilos,
araña del olvido.)

Mi corazón despierto sus amores decía.

(Araña del silencio,
téjele tu misterio.)

El agua de la fuente lo escuchaba sombría.

(Araña del silencio,
téjele tu misterio.)

Mi corazón se vuelca sobre la fuente fría.

(Manos blancas, lejanas,
detened las aguas.)

 

Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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