A selva no trabalho

Fonte: La jungla laboral,  YouTube

“A economia global e as políticas neoliberais não são abstrações sem reflexo na vida privada dos cidadãos. Como um efeito dominó, impregnam todas as camadas sociais e ambientes de trabalho, desenhando uma tendência generalizada na qual a competitividade costuma ser entendida como uma luta na qual vale tudo, inclusive entre iguais. Nesse contexto, parecem lógicas as cada vez mais frequentes situações de assédio no trabalho, ou mobbing, um fenômeno que na Espanha atinge 15% da população trabalhadora. A Universidade Internacional da Andaluzia, em sua Sede de Santa María de la Rábida, dedicou um curso à importância dos riscos psicossociais no ambiente de trabalho. Nesta edição, o catedrático de direito do trabalho da UJEN, Cristóbal Molina, e a pesquisadora e socióloga da Universidade Católica de Leuven, Ada García, fazem uma análise do fenômeno do mobbing em seus aspectos descritivos, de detecção e de contextualização na política econômica e empresarial mundial.”

Texto do vídeo em português:

Segundo o estudo “Cisneros” da Universidade de Alcalá de Henares*, 15% dos trabalhadores ativos, mais de 2 milhões de pessoas, sofrem assédio no trabalho na Espanha.

* Um dos pesquisadores responsáveis é Iñaqui Piñuel. Para uma aula sua sobre mobbing, ver este post.

Cristóbal Molina: Os primeiros que estudam esse assunto… é um etólogo. Porque são comportamentos de animais. Num grupo habitual, em que são os mesmos, se identificam por características comuns, um da mesma espécie, mas de tamanho diferente, porque é menor, porque é maior, porque tem um caráter menos agressivo, mais agressivo, não é identificado como sendo parte. Então o grupo começa, uma de duas, ou a isolá-lo, a excluí-lo, ou a agredi-lo.

1. O INCIDENTE

15 de junho de 1999

“O representante me explicou que já estava mais tranquilo para poder me informar que não confiava mais em mim.”

“Respondi que não tinha feito nada a ele. Que a divergência faz parte da riqueza de uma gestão.”

Ada García: Hoje em dia há uma série de objetivos que as organizações procuram colocar em andamento. Por exemplo: a produtividade, aumentar a produção, aumentar o rendimento, a forma de ganhar clientes, de atendimento ao público. Mas às vezes isso acontece com formas que não são adequadas ao funcionamento humano.

Ada García: Na realidade, o assédio é um processo. O assédio começa às vezes por pequenas coisas que… as pessoas não percebem que estão sendo alvo de comentários ácidos, comentários negativos, rejeições, sendo ignoradas, de uma recusa a tê-la por perto, não querem lhe dar explicações… E aos poucos isso vai se intensificando, vai se prolongando, vai se configurando essa coisa toda que é o processo.

2. DEGRADAÇÃO DE CONDIÇÕES

30 de junho de 1999

“Hoje saio de férias (me obrigaram). Depois delas, imagino que mais inferno. Nem mesmo sei onde vou me sentar.”

“Alguns dizem que enquanto não mexerem com o salário, o resto se aguenta. Não é verdade.”

Cristóbal Molina: Se você prestar atenção, em algumas organizações de trabalho, os que
passam por essas situações costumam ser pessoas muito qualificadas, que além disso têm um afã de trabalho às vezes até desmesurado. A idiosincrasia andaluza diria: “Esse professor está louco! Receber salário todos os meses sem ter que pegar no batente. Onde se estuda para conseguir isso?” Mas há pessoas para quem o trabalho não é só uma fonte de renda, é também um fator de dignidade pessoal. As pessoas se sentem úteis. E para essas que efetivamente se entregam muito mais, quando você priva do trabalho, faz mais mal ainda. Então a escala de sofrimento causada pelo assédio no trabalho é muito maior.

14 de julho de 1999.

“No final da manhã veio o pior: Tive uma reunião de diretoria (talvez a última) e ninguém me deu os pêsames pela morte do meu irmão.”

“Prometo não me permitir nunca esquecer essa falta de humanidade.”

Ada García: Às vezes o problema pode partir de um desejo de eliminar uma pessoa que, seja o colega ou o chefe, não quer continuar tendo em sua equipe.

Ada García: Outra situação são as oposições entre pessoas que estão, por exemplo, interessadas em um sucesso profissional e que estão em competição, dois colegas, e que então “vamos anular o trabalho do outro”, “vamos assediá-lo”, para inclusive prejudicar o que ele faz, ela faz, em seu computador, interferir nos sistemas, para que a outra pessoa seja menos valorizada e eu possa ter mais importância no desenvolvimento do trabalho comum.

3. INTERVENÇÃO DA DIREÇÃO

17 de setembro de 1999

“Agora sou invisível. A maioria deles nem me enxerga.”

“Nem sequer pegam balas do pote de vidro que coloquei na minha mesa.”

Cristóbal Molina: O normal é que você se dirija a alguém. Então a direção tem duas opções, só duas possibilidades. Uma: leva você a sério, se preocupa com você e investiga, apura a situação e depura. Ou faz o que é mais habitual: você começa a ser incômodo: “Que porre esse fulano, essa fulana! Esse aí é um problema.” Quando não é o próprio empresário quem faz o assédio…

Cristóbal Molina: O assédio moral é uma alternativa silenciosa à demissão. Quando uma empresa anuncia uma redução de pessoal, o que acontece na bolsa? Sobe. E por que sobe? Porque vai ter custo menor. Quer dizer, numa sociedade em que excluir ou se livrar do trabalhador é rentável do ponto de vista da competição empresarial, como não teria sentido o assédio moral, que é uma orquestração, é um planejamento da liberação de determinados trabalhadores da empresa?

4. AUTOEXCLUSÃO

12 de março de 2000

“Não posso negar que já esperava que isso acontecesse: me tiraram o computador. Não me deixaram nem desligá-lo.”

“Essa gentinha foi longe demais. Se não me devolverem o computador, recorro à via legal. Difícil vai ser achar um bom advogado.”  

Cristóbal Molina: Aí a pessoa já está excluída. O ambiente já se tornou adverso, hostil. Os colegas a isolam porque pensam: “Caramba, se eu falar muito com essa pessoa, vou parar no olho da rua.” Inclusive às vezes acontece – isso é mais difícil de provar, mas há sentenças em que aparece inclusive que a diretoria deu instruções a esse respeito: “Não falar com essa pessoa. Qualquer pessoa que [?], terá que arcar com as consequências”.

Ada García: Qual é o custo do assédio? O custo do absentismo. O custo de ter que substituir a pessoa que estava no cargo e que teve que sair porque está doente. Precisa pagar os gastos de ter que selecionar uma nova pessoa, de treinar essa pessoa. Para a empresa, tudo isso representa gastos. É mais simples eliminar as pessoas que não me convêm. Mas na verdade é uma perda para a empresa, porque ela investiu nessas pessoas.

Cristóbal Molina: Quanto custa isso? Em assistência médica? É tremendo, mas, claro, quem paga isso? Como não são os empresários, quem paga a conta somos eu e você. Se os que pagam são todos os cidadãos, o que acontece? Que quem causa o dano não paga por ele.

5 de dezembro de 2001

“Se um diário tem que ter datas-chave, a deste diário é hoje. Por fim entramos com a ação na justiça.”

“Me sinto nas nuvens, apesar de que o advogado já me avisou que eles vão mentir e me acusar de toda a merda que puderem…”

Cristóbal Molina: Se eu, empresário, eu, responsável público, eu, fiscal do trabalho, acredito que de fato os riscos psicossociais e sobretudo a questão da violência no trabalho, é um risco psicossocial, é um problema, vou exigir. E não preciso que exista nenhuma norma, nenhum critério técnico… porque efetivamente as ferramentas técnicas existem.

Diário de JM, chefe de redação com 20 anos de empresa. Fragmentos extraídos do livro “Por qué se la han tomado conmigo?” de Gerardo Mediavilla (Ed. Grijalbo). A sentença judicial foi sua reintegração no cargo e uma indenização de 18.000 euros.

Mais informações: http://www.unia.es

Anúncios

Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
Esse post foi publicado em Violências e marcado , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s