Machismo internalizado – Jarid Arraes

Publicado em Mulher dialética, por Jarid Arraes, 08/07/2012

Apesar da crença popular de que o machismo é coisa do século passado, valores que agridem as mulheres continuam impregnados na nossa cultura. Mesmo nos meios mais conservadores, não raramente, é possível ouvir queixas femininas quanto à sobrecarga de trabalho doméstico, a responsabilidade total pelos cuidados com as crianças ou imposições sociais devido ao casamento. Além disso, apesar de ser uma única pessoa, a mulher contemporânea muitas vezes precisa cumprir mil papéis diferentes ao mesmo tempo em que sustenta uma aparência impecável. Há uma grande indústria de moda, cabelo e maquiagem direcionada a todas as pessoas que a sociedade enxerga como mulheres – ou seja, não somente mulheres cis, mas também pessoas trans ou intersexo -, muitas das quais, desde a mais tenra idade, são vítimas da manutenção de beleza. Mulheres trans, quando legitimamente reconhecidas como tal, são ainda mais bombardeadas com cobranças em relação a sua aparência física e expressão de gênero, porque precisam de vaidade extra para “compensar” a sua não-cissexualidade.

Embora machistas, essas exigências culturais sobre as mulheres não são exercidas somente pelos homens – individualmente ou com o exercício de poder por meio da ciência, política ou mídia. As próprias mulheres, ao internalizarem que devem ser bonitas para serem aceitas, comumente desenvolvem o hábito de buscar o que há de errado não apenasem si próprias, mas também nas outras. Esse comportamento, aprendido a partir do meio em que estão inseridas, é nocivo para elas mesmas, possivelmente sem que sequer se dêem conta. Muitas meninas aprendem rapidamente o significado de “parecer uma princesa” e internalizam palavras como “linda” como o melhor elogio possível.

Com essa cobrança massiva, uma parcela preocupante das garotas – que têm entrado cada vez mais cedo no mundo do alisamento capilar, maquiagem, salto alto e, pasmem, até mesmo cirurgias plásticas -, aprende rapidamente a reforçar o dever de adequar-se: seja em forma de bullying ou de aconselhamentos, elas transmitem umas às outras as regras do jogo. E se há algum tempo a coação se fazia em forma de brincadeiras com princesas, castelos e pequenas coroas, os meios como essas cobranças são feitas têm se tornado cada vez mais radicais. Seja por meio de críticas ou de deboches, as exigências para se tornar uma “mulher apresentável” vêm aumentando e se tornando mais complexas. As meninas absorvem a necessidade de apontar todas as falhas uma das outras, seja sobre supostos defeitos estéticos ou comportamento inadequado: é preciso usar roupa sensual sem ser “vulgar”; cabelo alisado sem parecer artificial; rosto maquiado com aparência natural.

O problema é que quando uma mulher critica a aparência de outra, o faz sob uma ótica machista, que reduz todas as mulheres às suas condições físicas. Julga e avalia seus atributos corporais com base em padrões de beleza inalcançáveis, frequentemente racistas, elitistas e sexistas. Isso é facilmente perceptível: basta notar o tom e o objeto dessas críticas: o cabelo que é “ruim”, a celulite que a roupa não cobre, as estrias que são muitas, os pêlos que não são removidos ou a aparência “desleixada” e falta de vaidade feminina. No momento em que uma mulher aponta essas supostas falhas em outra, repete e reforça tudo aquilo que oprime ela mesma.

E enquanto é verdade que muitas meninas e mulheres absorvem valores machistas de outras mulheres, seria extremamente ignorante culpabilizar unicamente as mulheres por esse processo cultural e machista, como se esse comportamento estivesse escrito em seu código genético. Apesar das mães serem geralmente mais presentes na educação dos filhos no atual modelo patriarcal da sociedade, é equivocado atribuir a elas toda a responsabilidade pelo processo de aprendizado das crianças. Ninguém existe apenas no ambiente doméstico e, mesmo no contexto familiar, estão presentes pessoas de variados sexos e gêneros para transmitir valores e exercer influência. Com grande importância, há de se lembrar ainda da sala de aula, das amizades, da televisão e da internet. A cultura é reproduzida, ensinada e espalhada por todas as pessoas inseridas na sociedade.

Para solucionarmos essa questão, uma mudança de mentalidade e atitude precisa partir das próprias mulheres, que devem combater o hábito de julgamento e modificar o vocabulário para que críticas opressivas não sejam mais multiplicadas por elas mesmas. Nenhuma mulher é menos bela por não ter o cabelo e o corpo reproduzidos pelo padrão de beleza. Ainda mais importante, é preciso compreender que mulheres são seres humanos; sua humanidade não deveria jamais ser reduzida à sua aparência física, às roupas que vestem, expressão sexual, presença ou ausência de pêlos, à maquiagem e ao volume de seus cabelos. Isso é fundamental e somente eliminando o preconceito por dentro teremos uma chance de acabar com a opressão.

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Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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