Babaquice nossa de cada dia – Marjorie Rodrigues



Publicado no Feminismo e cultura pop, 24/05/2012

Dizem que as redes sociais fazem parecer que a vida de todo mundo é perfeita (afinal, escolhemos apenas o melhor da gente para mostrar). Mas, olha, quando estoura uma polemiquinha, o efeito é o contrário: tenho a impressão de que há uma quantidade grande de pessoas com uma existência pra lá de miserável. 

Porque, veja bem. A Xuxa é mesmo uma figura meio estranha. Não há dúvidas de que o tempo dela já passou. Difícil se identificar com a aparente síndrome de Peter Pan, o sorriso forçado, a voz de tatibitate. Como simpatizar com alguém que diz ver duendes, chama caps lock de jeitinho e passeia pelo shopping com o cachorro dentro de um carrinho de bebê? Xuxa é daquelas celebridades decadentes que viram caricaturas de si mesmas. Mas, porém, contudo, todavia: por menos identificação que eu tenha com a Xuxa, tenho uma vida, né? Não vou perder meu tempo me preocupando, antipatizando ou vociferando contra ela. Como tenho uma vida pra viver, a Xuxa como pessoa é algo que me importa picas.

Então, esse mundaréu de gente com existências miseráveis, em vez de aproveitar a ocasião para debater a bola que foi levantada (no caso, o abuso sexual infantil, que é SIM um problema muito disseminado*), passa a focar na Xuxa-como-pessoa. Algo que devia lhes importar picas. E aí começa o show de abobrinhas:

“Por que ela só foi falar disso agora?”

Desde quando denúncia de estupro tem prazo de validade? E por que deveria ter? Se existe um prazo de validade, depois de que idade não se pode falar mais nada? 25, 30, 40? Por que uma pessoa estuprada não pode contar o que lhe aconteceu depois de velha? Denunciar um estupro só tem valor se for para prender o estuprador?

Deixa eu falar um negocinho: diferentes pessoas lidam com diferentes situações de forma diferente. De repente, justamente por estar decadente, Xuxa só se sentiu confortável para falar disso publicamente agora. Ou só lida melhor com isso (a ponto de conseguir tocar no assunto) agora. Sei lá. Sei lá por que ela não quis contar isso antes. E sei lá por que ela resolveu contar isso em rede nacional. Os motivos da Xuxa são dela, e não nos concernem. Tô cagando mesmo. E, em estando a cagar, não vou julgar se é certo ou errado falar disso na televisão em vez de falar no divã. Aliás, nem sei se ela já falou disso no divã. E se ela decidiu no divã que seria bom falar na TV? As pessoas fazem coisas por motivos que são delas e atribuem significados (que são todos delas) ao que fazem.

As feministas da segunda onda tinham como lema a frase “o pessoal é político”. O objetivo era quebrar a dicotomia público x privado, encorajando as mulheres a contar o que lhes acontecia na esfera doméstica/privada/pessoal. Assim, elas percebiam que muitas de suas experiências não eram únicas, mas sim coletivas. Por isso é importante que as pessoas falem publicamente de estupro, violência doméstica, divisão do trabalho doméstico, etc etc. Para que vejam que são fenômenos sociais, e não algo que acontece apenas na casa delas. Na terceira onda feminista, o lema continua, principalmente na literatura, focada nas autobiografias. Durante a entrevista, Xuxa diz que resolveu contar do seu abuso exatamente com esse objetivo: para que as pessoas percebessem que o abuso infantil é comum, e que é preciso lutar contra ele. A Xuxa é feminista? Não, e também pouco me importa quem “merece” carteirinha do clubinho ou não. Só sei que a atitude dela está totalmente alinhada com esse raciocínio introduzido pelas feministas. E, por isso, acho totalmente válido se expor em rede nacional.

“Acho que ela está mentindo. Primeiro ela diz que não sabe quem foi, depois que foram o namorado da avó, um amigo do pai e um professor”

De novo, pouco me importa se é mentira ou não. Se a Xuxa mentiu, só ela sabe por que fez isso. O que importa é que o depoimento, verdadeiro ou não, chamou a atenção para a questão do abuso infantil. Por isso, Pedro Bó, o foco da discussão devia ser ESSE. Se ela mentiu ou não, e daí? Você nunca vai descobrir e ficar gritando aos quatro ventos (virtuais) que ela é uma vaca mentirosa não ajuda em nada.

“Ela só está fazendo isso pra se promover! Ou pra dar audiência pro Fantástico!”

É lógico que um programa de televisão que coloca gente famosa pra contar coisas pessoais, com uma musiquinha de fundo emotiva e close nos olhos, quer mais é alavancar audiência. PARABÉNS POR DESCOBRIR O BRASIL. Está mais do que claro o que o Fantástico, ou a Globo, ganham com isso.

Porém, pensa com a tia: o que a Xuxa ganha se colocando no lugar de vítima de um crime horroroso? Desculpaí, mas não é nada cool ser vítima de estupro/pedofilia. Não é um rótulo que eu acho que as pessoas *queiram*. Tipo: “Olá, prazer, sou vítima de estupro. Tudo bem?”

Vocês acham mesmo que a Xuxa vai conseguir, sei lá, um horário melhor pro seu programa na Globo porque se disse vítima de estupro? Ou que as crianças vão começar a pedir loucamente para os pais comprarem seus discos? A única coisa que ela ganha é uma atenção momentânea e NEGATIVA. Não consigo ver nenhum ganho profissional.

Negativa porque a primeira coisa que pessoas babacas fazem quando o assunto é estupro é começar a julgar a mulher (para, assim, passar a mão na cabeça do estuprador). Tipo: “Mas será que foi estuprada mesmo?”, “Será que ela não pediu?”, ”Será que ela não tá querendo queimar o cara?” Começa-se todo um escrutínio do comportamento da mulher. Afinal, sabe como é, só são estupradas mesmo as santinhas. As “putas” nunca o são: as “putas” pedem, as “putas” querem. E tudo o mais que a gente diz na Marcha das Vadias. Ao dizer-se vítima de estupro no Fantástico, Xuxa submete-se a esse tipo de escrutínio abjeto e incômodo, que infelizmente é inevitável na nossa sociedade tão machista. E aí eu pergunto: o que alguém ganha em se colocar na berlinda assim? Cês acham mesmo que isso aí é vantagem?

“Uau, héin. Belo trauma. A pessoa é abusada quando criança e depois faz um filme erótico com um menino. Hipócrita!”

A minha aposta (só aposta mesmo) é que a maioria das pessoas que falam isso nunca assistiram a “Amor, Estranho Amor”. Eu nunca assiti, não faço a menor ideia do enredo. A única coisa que sei, de ouvir falar, é que a Xuxa contracena nua com um garoto. Não sou medida de nada, mas enfim, isso não importa. O que importa mesmo é a escrotidão das pessoas em querer ditar como uma vítima de estupro deve ser e agir. As pessoas acham que uma vítima de estupro não pode ter sexualidade depois. Não pode usar roupa provocante, não pode fazer filme erótico, não pode tirar foto pelada, não pode ter namorado e vida sexual ativa, nada. Tem que ser eternamente traumatizada e travada, eternamente marcada pela violação.

De novo: diferentes pessoas lidam de forma diferente com experiências diferentes e dão significados diferentes para tais experiências. Existem vítimas de estupro que também estupram, vítimas de tráfico de pessoas que depois ajudam seus algozes a traficar. Nem toda vítima de estupro fica travada sexualmente para o resto da vida — e ainda bem que não é assim.

Existe um texto que me fizeram ler aqui no mestrado, chama “Wounded Attachments”, da Wendy Brown. Mudou tanto a minha vida que eu já perdi a conta de quantas vezes o reli. Basicamente, Wendy critica o discurso feminista mais mainstream, que usa o histórico de opressão contra as mulheres para justificar a existência do movimento. E aí ela diz que não quer um movimento que fique apenas batendo na tecla de que a opressão existe, um movimento com uma concepção negativa de liberdade (“quero ser liberta de”), mas sim um movimento com uma concepção positiva (“quero ser livre para”). Isso não é negar que a opressão exista, mas sim não deixar que a opressão defina quem você é. Porque assim você é uma vítima eterna, definida pelo que fazem a você. E não pelo que você faz ou pode fazer. E nossa, eu achei isso o máximo. Então, taí: existem vítimas de estupro que  encaram isso como algo que as marca para o resto da vida, algo que prejudica sua sexualidade, algo que faz parte do que elas são. E oquei, acontece (longe de mim, pelo amor de deus, dizer que essa forma de lidar com as coisas é pior). A questão é que essa não é a única maneira possível de lidar com isso. Existem também vítimas que não definem sua vida como antes do estupro e depois do estupro. O foda das pessoas é que elas estabelecem a primeira reação como padrão. É assim que uma vítima de verdade  deve ser e se portar. E se não for assim, ou ela está mentindo ou há algo de errado com ela.

Recomendo muito “3096 dias”, o livro de Natascha Kampusch, a austríaca que foi sequestrada quando criança e só conseguiu se libertar aos 18 anos. Ela passa boa parte do livro refletindo exatamente sobre isso. Como se recusou a classificar seu sequestrador como um simples “monstro” (preferindo falar dele como um ser humano sádico e perturbado, mas ainda assim um ser humano, com qualidades e defeitos) e também se recusou a falar de si como uma pobrezinha eternamente marcada, Natascha logo começou a ser atacada pela imprensa, que a acusou de ter síndrome de estocolmo. A Eliane Brum, que eu amo de paixão, tem uma ótima resenha do livro (LEIÃO). Aí a Natascha vai lá e diz: síndrome de estocolmo é o seu fiofó, a sociedade é que se sente incomodada com uma narrativa que fuja ao padrão do monstro e da coitadinha. Afinal uma narrativa com mais nuances nos obriga a ver que fabricamos os monstros, que eles são parte da sociedade, e que as mulheres não são apenas coitadinhas, elas também podem ser fortes. Natascha se recusa a enxergar-se como vítima o tempo todo, em sua relação com o sequestrador. Ela reconhece que tinha, sim, uma margem de autonomia para conseguir o que queria no dia-a-dia. E essa é uma tecla em que tem batido a Wendy Brown, a Elizabeth Grozs e outras feministas que tenho lido: só porque algumas pessoas têm menos poder, não significa que elas não tenham poder nenhum. Foucault na veia, etc.

Então, no fim, é isso: acho que as pessoas definem essa norma de comportamento pra vítima justamente pelo significado social que tem o estupro. O estupro é um instrumento da sociedade patriarcal pra subjugar as mulheres. Logo, uma vítima que não demonstre ser eternamente marcada por isso, que não fique eternamente traumatizada, que não se sinta eternamente subjugada, uma vítima que se reergue e vive sua sexualidade mesmo assim, ela é uma ameaça à ordem mesma que o estupro visa a reforçar. Porque se a vítima toca a bola pra frente e vive, então o estupro parece inócuo como ferramenta. É por isso que existe essa patrulha. Faço sentido?

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*Meu primeiro estágio em jornalismo foi numa revista para grávidas e pais de crianças pequenas. Por isso, criei alertas no Google com as palavras “criança” e “bebê”. Assim, achei que pegaria boa parte das matérias dos nossos concorrentes (coisas inofensivas, como tirar o bebê das fraldas, melhores marcas de chupeta e por aí vai). Ledo engano: o que eu recebia todo dia eram dezenas de notícias sobre bebês e crianças molestados, violentados, espancados e mortos Brasil afora. Uma notícia mais escabrosa que a outra. Desde então, recomendo pra todo mundo fazer esse alerta, só para se ter uma idéia de como o abuso contra crianças é endêmico.

PS – Aliás, a mesma gente com existência miserável ficou falando mal da Carolina Dieckmann, né. “Essa vaca fica de biscatagem e agora quer fechar o Google?” Ou:  ”Quem mandou tirar foto pelada? Ainda mais sabendo que é famosa?” Juro que não consigo entender essa lógica de que, só porque a pessoa é famosa, não pode mais brincar de tirar foto pelada DENTRO DE CASA e mantê-las no computador DE CASA. Entendo menos ainda quem acha que errado não é quem roubou as fotos, mas ela por “fazer sacanagem”.  Quem nunca tirou uma fotinho dessas na vida? Vida sexual pobre a de vocês, héin.

Também não vejo nada de errado em pedir ao Google que retire das buscas fotos que foram obtidas de forma ilícita. Ela não quer tirar a foto do seu HD. Quer apenas que o ladrão seja punido e que o Google cumpra suas políticas — razoável, não? Mas sabe como é, parece que pra esse povo, mulher que não é “santa” tem mais é que se foder. Fez sexo ou algo de cunho sexual? Então seja roubada e não reclame. A Panicat tem mais é que se foder, Carolina tem mais é que se foder, Geisy tem mais é que se foder, Xuxa tem mais é que se foder…

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Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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