Gentileza





As imagens acima estão para matizar o tema. Acontece que sou entusiasta da gentileza, mas nem sempre otimista da gentileza. É que gentileza pode gerar gentileza ou alimentar gente folgada. Depende. Gentileza tem mais sentido quando encontra reciprocidade mínima. Quando não encontra, só resta talvez redimensioná-la em civilidade possível. E civilidade talvez difira de gentileza em que a gentileza tem o calorzinho bom do aconchego e acolhimento, enquanto que civilidade pode até chegar a ser pontiaguda como fileiras de pregos em cima de muros, gerando como resultado um distanciamento frio. Compartilho a visão do Flávio Gikovate de que generosidade (gentileza incluída nela) pode ser negativa: gerar ou reforçar personalidades egoístas. E, sendo assim, não vejo generosidade ou gentileza como o valor maior, porque mais vale ir tentando aproximar-se da justa medida do agir justo, algum tipo de equilíbrio que não é egoísmo nem generosidade, e sua palavra-chave talvez seja reciprocidade. Nada simples, por sinal. Isso não parece impedir de adotar a gentileza por default. Mas quando ela reverte em abuso, maltrato, invasividade, injustiça, brutalidade, cabe dar um chega-prá-lá, e nem sempre parece haver forma gentil de dar um chega-prá-lá. Sinceramente? O comportamento mais sectário, frio, hostil, arrogante ou autoritário parece ser um modo mais efetivo e rápido de construir boa imagem própria e conquistar respeito alheio. Sendo, ainda assim, entusiasta da gentileza, dedico meus melhores esforços para encontrar a gentileza possível e não andar pelo mundo enfiando minhas verdades nas goelas alheias, quando as escolhas de vida alheias não me dizem respeito e minha opinião não foi solicitada. Quando a opinião é solicitada, franqueza não é incompatível com expressão cuidadosa, que preserva a dignidade do outro e reconhece a possibilidade de que as verdades próprias não sejam as únicas possíveis nem infalíveis. Nada fácil, definitivamente. Daí a importância, também, de ser compreensivo com as próprias escorregadas, gentil consigo mesmo. Menos fácil ainda explicar o que é a gentileza numa justa medida, algo de que só tenho uma intuição. Introdução feita, já dá para dizer que achei o texto abaixo uma tentativa que chega bem perto duma definição, além de ser delicioso.


“Uma gentileza, por favor” – Adriana Carvalho

Publicado no Digestivo Cultural, em 6/12/2007

“Mamãe, gentileza é de comer?”, pergunta o pequeno no restaurante. “Não, por que?”, questiona a mãe. “É que eu ouvi o papai pedindo uma gentileza, por favor, para o garçom”. Se a resposta da mãe fosse “sim, meu filho, é de comer”, quais características teria a gentileza que o garçom traria em sua bandeja?

Com certeza não seria industrializada, nem condensada, tampouco pasteurizada ou prensada, não teria conservantes e nem corantes artificiais. A verdadeira gentileza, para ter seus delicados e voláteis princípios ativos intactos, deveria ser servida de modo bem natural. Quase dispensável é dizer que estaria entre os alimentos orgânicos, porque seria um paradoxo uma gentileza recheada de agrotóxicos, fazendo malcriações para o meio ambiente ou para os trabalhadores que a cultivassem.

As contradições da gentileza não estariam na sua forma de cultivo, mas sim no fato de que seria, como tudo que é bom e gostoso, extremamente calórica sem, contudo, entupir artérias ou provocar síndromes metabólicas. A cada mordida, a cada “Hummmm!” de prazer, os sucos nutritivos da gentileza elevariam os níveis dos hormônios e neurotransmissores relacionados com o prazer humano. Seriam, dessa forma, uma ameaça – com todo o cavalheirismo possível – ao império do chocolate, o grande curandeiro atual das carências de amabilidade. Alguns estudos investigariam inclusive sua relação com o aumento da presença de ocitocina, hormônio que dá uma força química aos vínculos entre mães e filhos, e entre casais.

Voltando ao restaurante, a gentileza não se demoraria em chegar à mesa, porque não seria delicado deixar os comensais esperando e com fome. Poderia ser servida à temperatura ambiente ou morna, nunca fria: gentileza fria é mera polidez, reflexo condicionado do ser “educado”, e é cheia de falsidade.

O menino pequeno veria o garçom colocar à frente de seu pai um prato com um alimento de formas arredondadas e harmoniosas, como uma pêra em calda, talvez. Pediria para provar um pedaço e veria que ela seria suavemente doce. Não lhe caberia um sabor escandalosamente açucarado, muito menos amargo, ácido ou salgado, embora cada um deles tenha sua função, seu momento e sua graça.

Os médicos receitariam o consumo de gentileza para a manutenção de um estilo saudável de vida: “Você precisa incluir na sua dieta verduras, frutas e legumes. Diminua as frituras. Gentileza pode consumir à vontade”. Poderia ser um alimento usado em desenhos infantis para incentivar bons hábitos e costumes. O marinheiro Popeye, se ao invés de espinafre enlatado, comesse umas gentilezas recém-colhidas do pé, não sairia por aí dando sopapos em ninguém. Encontraria umas maneiras menos macho-man de resolver seus problemas com o Brutus.

As empresas que incluíssem gentilezas no cardápio de seus refeitórios seriam de fato socialmente responsáveis com seus funcionários e deixariam de pedir nos processos de seleção candidatos “dispostos a trabalhar sob pressão”.

Quem comesse gentileza nunca se esqueceria de dar bom-dia, até-logo ou pedir por favor. Faria isso de forma natural e não mecânica, como acontece com os atendentes moldados pela Blockbuster, McDonald´s ou Starbucks. Esses comem na firma a amabilidade padronizada e esterilizada, que provoca desagradáveis efeitos colaterais. Como o sorriso escancaradamente morto, igual ao que o Jack Nicholson, no papel de Coringa, inimigo do Batman, provocava em suas vítimas com um gás infame. Essa gentileza é sem graça como petit gâteau industrializado. Sem gosto como peixe preparado no microondas.

Gentileza seria ainda um alimento especialmente recomendado para quem sofre de algum dos seguintes problemas: dormir com a bunda descoberta, que provoca mal humor crônico e distúrbios da cortesia; compulsão por mágoas em conserva, ardidas como pequenas cebolas transparentes (cebolas são, sabidamente, vegetais que fazem muita gente chorar); consumo exagerado de verdade de colherinha na infância.

Tenho uma amiga que diz isso: “Fulana comeu muita verdade de colherinha quando era pequena, por isso ficou assim”. Diferentemente da gentileza, a verdade de colherinha pode ser imaginada como um alimento com calorias vazias, tais quais os refrigerantes: deixam o indivíduo inchado de si e dão a falsa sensação de alimentação. Poderiam ser vistos também como papinhas de nenê de potinho. Sem sal, sem tempero, sem experimentação dos sabores e texturas originais. Comida morta. Pseudo-sabedoria.

Prática de consumir, a verdade de colherinha isenta o indivíduo de filosofar, pensar, ponderar ou mesmo considerar que pode estar errado. Não exige que se procure outras fontes de conhecimento, que aceite outras opiniões. Não é necessário nem sujar muita panela, nem mesmo lavar louça depois, porque a verdade de colherinha já vem, é claro, com uma colherinha de plástico descartável totalmente grátis.

Está escrito no pote que é Verdade, então não há mais o que discutir. E o rótulo ainda diz que é enriquecida com dez vitaminas e ferro, o que alivia a consciência de quem a come, mesmo que não saiba para que serve tanta vitamina exatamente. Quem se entope de verdade de colherinha sempre critica de maneira pouco cortês o que você ou os seus filhos comem, como se vestem, como se portam. Sempre tem um conselho que é para o seu bem, sempre lança seu olhar recriminador para as criaturas inferiores com quem acredita ser obrigada a conviver.

Novamente de volta à mesa, o menino pequeno aprovaria a novidade que acabara de provar. A mãe ficaria feliz e surpresa de vê-lo experimentando algo novo. O pai não pediria café e deixaria até mesmo para escovar os dentes bem mais tarde, só para preservar um pouco mais na boca o gosto da gentileza.

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Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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3 respostas para Gentileza

  1. Sarah Carrijo disse:

    Excelente texto! Li há alguns dias e não pude deixar de voltar para ler novamente.
    As metáforas deixaram o texto bem gostoso de ser lido. Amei sua forma de escrever!

  2. Sarah Carrijo disse:

    Ah, sim. Obrigada!

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