Violência sexual e aborto – Jefferson Drezett

Fonte: Instituto Viva a Vida, 29/06/2005

Por Ciça Vallerio

O humor é o primeiro traço que se nota no ginecologista e obstetra Jefferson Drezett, de 43 anos. Ele só fica sério quando o assunto é violência sexual feminina. E foi sobre este tema que ele conversou durante três horas, em uma pequena lanchonete, ao lado do Hospital Pérola Byington, no centro de São Paulo, regado a (muito) café – seu vício assumido. Neste hospital, Drezett não só implantou um serviço, há 12 anos, como coordena e atende pessoalmente mulheres e crianças vítimas de estupro ou abuso sexual.

Desde fevereiro, ele comemora seu retorno ao projeto ligado à Secretaria da Saúde, após dois anos afastado. Sua volta vai marcar a reestruturação do Serviço de Atenção Integral à Mulher Sexualmente Vitimada (tel: 3242-3433, ramais 344 ou 369), que se tornou referência no País e no exterior. O modelo, que inclui atendimento médico, social e psicológico, foi “exportado” para o México, Bolívia, Equador, Argentina e Nicarágua. Em todos eles, há a mão de Drezett, que ajudou a implantá-lo pela América do Sul.


 Por que seu nome é associado à polêmica do aborto?

 Acredito que, em parte, seja pelo trabalho que fazemos na instituição, garantindo às mulheres que tiveram gravidez resultante da violência sexual o acesso ao aborto previsto pela Lei. Também por minha posição pessoal e profissional em relação a isso: não se trata de ser “a favor” ou “contra” o aborto. Gostaria mesmo que as mulheres nunca precisassem passar por isso. Mas a proibição não é uma medida inteligente. Ela tem se mostrado ineficaz para reduzir o número de abortos. E tem sido muito eficiente para aumentar as mortes decorrentes do aborto clandestino, atingindo principalmente a mulher pobre. É angustiante saber que, mesmo com os incontestáveis dados estatísticos sobre os danos do aborto inseguro, tomam-se decisões no País colocando-se convicções morais ou religiosas como prioridade. Gostaria que parassem de tratar esse assunto de maneira estúpida. Estou cansado de assinar atestados de óbito de mulheres vítimas de abortos clandestinos.

 Qual é a realidade do aborto?

 No mundo, a cada três minutos, morre uma mulher por problemas relacionados ao aborto. Por minuto, são feitos cerca de 40 abortos inseguros. No Brasil, são realizados quase 1 milhão de abortos por ano. De cada 5, 2 são feitos de forma insegura. Com isso, o aborto é a terceira causa de morte de mulheres durante a gravidez no País. São quase 250 mil internações por ano na rede pública de saúde para tratar problemas relacionados a isso. A situação é grave e a morte dessas mulheres poderia ser evitada com o fim da clandestinidade. Mas há o medo de que isso “estimule” a prática do aborto, o que não é verdade. A maioria dos países que descriminalizaram o aborto não observou aumento no seu número. O que reduz a necessidade das mulheres recorrerem ao aborto é o acesso ao planejamento familiar e à educação sexual, e a igualdade de condições na sociedade. Além do fim da clandestinidade.

 Sua posição em relação ao aborto já lhe causou problemas?

 Sim, algumas vezes. Já fui chamado de assassino e de “feticida”. É natural que as pessoas que têm convicções diferentes sobre o aborto se manifestem e apresentem seus argumentos, muitas vezes, de forma contundente. E sempre respeito as posições discordantes das minhas. Mas não é incomum que esse debate leve a situações de certo exagero, resultando num tratamento longe do cortês. Mesmo nesses momentos desagradáveis, lembro que as questões das mulheres são mais importantes e termino administrando bem tudo isso.

O senhor é constantemente chamado a eventos e congressos para banir alguns mitos sobre o tema?

 O importante é fazer as pessoas refletirem e repensarem seus conceitos, usando informações e evidências científicas sustentáveis. O que faço é apenas mostrar dados concretos, que ajudam a derrubar alguns mitos. Como no caso da anticoncepção de emergência (AE), mais conhecida como “pílula do dia seguinte”, que serve para evitar a gravidez indesejada. Muitos acreditam que a AE é um medicamento que “expulsa” o óvulo fecundado do útero, um método abortivo. Isso é um grande equívoco. O efeito da AE acontece antes do óvulo ser fecundado pelo espermatozóide. Conforme o período do ciclo menstrual da mulher, a AE bloqueia a ovulação ou impede a passagem do espermatozóide pelo colo do útero. Dessa forma, ela evita a fecundação. Mas não há nenhuma evidência científica de que ela atue depois do óvulo fecundado. Essa é a posição oficial da Organização Mundial da Saúde.

 Qual é a eficácia desse medicamento se a mulher for atendida logo após o estupro?

 Se ela chegar nas primeiras 12 horas após o estupro, as chances de a anticoncepção de emergência falhar são muito baixas, cerca de 0,5%. Quanto maior a demora, maior é o risco de falha. Se ela nos procurar somente no quinto dia, a falha pode chegar a 70%. Mesmo assim, vale a pena tentar. Em caso de falha, ainda existe a alternativa do aborto legal, direito garantido pelo Código Penal.

 Nos casos de estupro, como se previne as doenças sexualmente transmissíveis(DSTs) e o contágio do HIV?

 Se o agressor sexual for portador de uma DST, como sífilis ou gonorréia, é possível prevenir que a mulher se contamine com o uso de antibióticos específicos. Essa medida vale para várias outras doenças. E é muito importante para evitar danos futuros à saúde reprodutiva das mulheres. Mas é preciso lembrar que muitas DSTs não podem ser evitadas, o que exige que a mulher faça exames periódicos após a violência e trate as eventuais doenças que não puderam ser prevenidas. No caso da infecção pelo HIV, estima-se que, em São Paulo, 27 mulheres se contaminem a cada mil estupros. Durante oito anos, desenvolvemos um estudo com cerca de 1.700 mulheres vítimas de violência sexual. Parte delas recebeu medicamentos anti-retrovirais, conhecidos como “coquetel”, para a prevenção do HIV. Nenhuma foi contaminada. O uso de anti-retrovirais foi normatizado em 2002 pelo Ministério da Saúde e a iniciativa tem recebido a atenção da Organização Mundial da Saúde.

Há mulheres que procuram o serviço do Pérola Byington dias depois do estupro?

 Há quem nos procure meses ou anos depois, principalmente, por causa de alguma conseqüência relacionada à violência. Há muitas razões para não procurarem ajuda de imediato. A principal delas é a ameaça do agressor, principalmente se ele for alguém próximo, ligado à família. Outro problema é que muitas mulheres têm medo de se expor, medo de que sua história seja conhecida ou de serem mal-interpretadas. Porque as vítimas, infelizmente, ainda são estigmatizadas pela sociedade. Sem contar que uma boa parte da população desconhece os riscos que envolvem o estupro, como a gravidez e a contaminação das DST e do HIV.

 Como a mulher prova que foi estuprada?

 Não dá para encontrar danos físicos na maioria dos casos. Nesse ponto, está uma grande surpresa: na América Latina, quase 80% dos estupros são praticados sob grave ameaça, intimidando-se a mulher com uma arma, sem uso da força física. Nesses casos, marcas de violência física simplesmente não existem. De 10 mil mulheres e adolescentes atendidas pelo nosso serviço, apenas 11% apresentavam traumas físicos. Em 90% dos casos, elas não tinham nenhuma marca no corpo e, em 95%, nem sequer marcas nos genitais. Segundo dados do IML, só em 13% das vítimas é possível resgatar alguma prova material da violência sexual. Frente a essas circunstâncias, exigir da mulher marcas físicas como prova da violência sexual seria o mesmo que exigir que o agressor brutalmente a espancasse e a ferisse. Isso é, no mínimo, um paradoxo. A mulher deveria ser atendida nos serviços de saúde obedecendo-se o princípio da “presunção de veracidade”. Ou seja, ela tem o direito legal e ético de ter sua palavra respeitada se não existirem indicadores que provem o contrário. Tratá-la como uma suposta “mentirosa” é ilegal, imoral e desumano. É uma violação aos Direitos Humanos.

 E como funciona o atendimento no Hospital Pérola Byington?

 Aqui a equipe de saúde não usa o princípio do “exigir provas” impossíveis, mas sim o de atender a mulher com respeito. A palavra dela sempre é recebida com credibilidade. Atender casos de violência sexual é algo um tanto difícil, principalmente no começo do trabalho. O profissional de saúde precisa ter disponibilidade pessoal e aprender a lidar com a mulher nessa situação, o que requer sensibilidade e preparo. É necessário criar uma relação de confiança muito grande. Nesses momentos difíceis, as pessoas desejam ser acreditadas e acolhidas com dignidade. Nesse sentido, acho que temos nos conduzido pelo caminho certo. Por causa do modo que atendemos, é comum recebermos convites das mulheres, alguns anos após sua passagem por aqui, para sermos padrinhos de seu casamento, por exemplo. Recebemos essas manifestações com grande carinho e como reconhecimento de um modelo de atendimento que respeita e que tem atendido as expectativas das mulheres.

 Como é lidar com a brutalidade vivenciada por crianças e mulheres?

 É uma vivência de certa forma difícil. Nos primeiros anos, conviver com essa realidade foi muito impactante na minha vida. As histórias são sempre chocantes. Lembro de uma mulher que foi violentada brutalmente. E que tinha grande necessidade de contar, com todos os detalhes, como tudo havia ocorrido. Procurando escutá-la com atenção, fui ficando tão angustiado que tive de inventar que meu bip estava tocando, para poder sair um pouco da sala e “respirar”, me recuperar emocionalmente, antes de voltar e ouvi-la completar sua história. Com o tempo, adquiri maturidade emocional para lidar com tudo isso. Mas já tivemos profissionais que não suportaram lidar com o impacto da violência e se afastaram da equipe. Não quero, com isso, transmitir a idéia de que se trata de um trabalho impossível ou negativo. A atuação nessa área pode ser muito recompensadora e pode oferecer grande sentimento de realização profissional. Mas não se pode tratar a violência com indiferença, como mais um caso rotineiro nos serviços de emergência ou como um roubo de carro.

 Como o trabalho no Pérola Byington pode influenciar outros setores da sociedade?

 A saúde tem tomado algumas iniciativas no sentido de diminuir o abismo que existe com a Justiça. Passamos a colaborar com a Justiça, que, cada vez mais, nos solicita avaliações e dados sobre os casos para constar no processo criminal. A Justiça também tem procurado conhecer melhor os dados dos serviços de saúde sobre a violência sexual. Isso tem ajudado a desfazer mitos e romper com estereótipos. A Justiça também tem valorizado mais as informações ligadas à psicologia, especialmente quanto aos danos emocionais causados pela violência sexual. Sabe-se, por exemplo, que cerca de 18% das vítimas, adolescentes e adultas, pensam, persistentemente, no suicídio ou até o tentam. Essa percepção do impacto emocional é importante no processo de mudança de postura da sociedade no enfrentamento da violência sexual.

 Fonte: O Estado de São Paulo

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Sobre Ani

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2 respostas para Violência sexual e aborto – Jefferson Drezett

  1. bianca ribeiro disse:

    adorei…defendo esta causa

  2. Yngrid Gomes disse:

    Jefferson Drezett é um especialista no assunto.
    Admiro e acho valida toda e qualquer discussão que traga a sua presença.
    Obtive prazer em realizar esta leitura.

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