Linhas de areia

Como quase todo mundo já sabe, o budismo tibetano tem uma tradição de fazer mandalas de areia colorida. Até onde entendo, as mandalas são padrões geométricos, circulares, que deveriam simbolizar o universo. De fato, às vezes lembram labirintos, mas nunca o de Alá, porque li (e acreditei) que o labirinto de Alá é de areia branca, sem paredes nem portas. Durante dias, os monges vão compondo precisos e delicados desenhos coloridos. Terminada a mandala de areia, eles a santificam. “Depois a desfazem, com a mesma devoção”.

Durante muito tempo morei perto de um lugar com árvores, quarteirões enormes e pouco trânsito, em que era muito bom caminhar na rua, e isso tinha se tornado um hábito. Graças a essas caminhadas consegui parar de fumar durante anos, para voltar pouco depois que elas começaram a faltar. Eu tinha um trajeto fixo. Já sabia que ia durar uma hora do momento em que eu saía do prédio até a volta, incluindo a passagem por uma rua com túnel de árvores altas e uma igreja de Santa Teresinha. Na ida e na volta eu passava por essa rua. Passava tanto por lá que cheguei a ver, por acaso, pessoas com rosas para a santa num primeiro de outubro, e um concerto coral de Natal dentro da igreja, com o Messias de Händel e Jesus, alegria dos homens no repertório, além de Lima Duarte lendo alguns poemas (tudo meio clichezão, mas adorei). Normalmente caminhava no final da tarde, porque a temperatura era legal e às vezes também dava para ver raios crepusculares saindo das nuvens e ouvir o sino. Perdi a conta das vezes em que ele tocou logo quando eu voltava a passar pela igreja. Então brincava de pensar que tocava para me cumprimentar. Era na volta que eu entrava um pouco, se estivesse vazia. Dizem que Nelson Rodrigues disse que “Deus só frequenta igrejas vazias”. Cito de segunda mão, como várias outras coisas. Venho tentando não me intimidar com tudo que será impossível ler diretamente, nem reparar demais na procedência, quando alguma coisa fez sentido ou me divertiu. Essa, seja do Nelson Rodrigues ou não, cumpre os dois requisitos. Quanto mais deserta estava a igreja, melhor era sentir no último banco o bem-estar da endorfina e do silêncio, ainda que receando afugentar Deus de lá com a minha intromissão, que impedia a igreja de permanecer vazia.

Logo ao lado fica o Instituto Europeu de Design, que tem uma entrada relativamente pequena. Um dia, na ida da caminhada, quando eu acabava de passar pela frente da igreja e estava na calçada do IED, saíram pela porta, passando a um dedo de mim, quatro monges orientais vestidos de amarelo e vermelho, contagiantemente sorridentes, e entraram num carro. Eles estavam visitando o Brasil. Deviam estar saindo de fazer e desfazer mandalas de areia (havia um anúncio dessa atividade na porta do lugar). Se o inesperado da coisa não tivesse prejudicado os meus reflexos, talvez tivesse feito algum gesto de saudação, mas só terminei de processar o acontecido uma quadra depois. O instante do encontro, de tão preciso, era quase impossível. Não esqueço, porque passo a vida colorindo areia e construindo demoradas mandalas que se desfazem completamente. Não duvido que um dia aconteça também com este blog. Naquela época, isso me doía. Não é que tenha deixado definitivamente de me desconcertar, mas conforme o padrão se repete, vai sendo mais sereno vê-las se diluírem no deserto uma após a outra, indiferentes a qualquer comoção, sem santificação. O dedo de distância daqueles caras talvez esteja diminuindo. Sonho um dia dançar nessa ciranda com a mesma leveza compreensiva que imaginei neles.




Num instante que de tão preciso era quase impossível, um dia encontrei esses caras, numa rua de São Paulo. Não esqueço, porque passo a vida colorindo areia e construindo demoradas mandalas que se desfazem completamente.

Num instante que de tão preciso era quase impossível, um dia cruzei com esses caras a um dedo de distância numa calçada da cidade. Vinham de fazer e desfazer mandalas e sorriam. Não esqueço, porque passo a vida colorindo areia e construindo demoradas mandalas que logo se desfazem completamente. Sonho um dia dançar nessa ciranda com a leveza compreensiva que imaginei neles.



Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
Esse post foi publicado em Do espírito, Memórias sonhos reflexões e marcado , . Guardar link permanente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s