Tzimtzum, Leah e Raquel: sobre o simbolismo do casamento hassídico

O texto de Dov Greenberg postado abaixo foi reproduzido do site que pode ser acessado clicando no título original, ao lado da foto. É um dos textos instigantes com os quais topei navegando pela web. Nesse caso, estava procurando algo sobre o tzimtzum ou interpretações da história bíblica de Léa e Raquel, não lembro com certeza.

A ideia de que, numa relação (no caso de que fala o texto, um casamento), o amor pode ser entendido como uma “retirada” voluntária do ego para criar um espaço vazio em si e na própria vida onde possa caber o outro, bem como a ideia de que num parceiro convivem uma Raquel e uma Léa, foram as que me pareceram instigantes, independentemente de se isso acontece dentro de um casamento institucionalizado. A cerimônia do casamento hassídico é uma bela representação simbólica dessas visões de uma relação amorosa, que se poderia transpor, me parece, para qualquer laço humano positivo, mesmo uma amizade.

A preocupação que moveu o autor do texto a falar do tema parece ter sido a alta incidência de divórcios. Não é preocupação que eu compartilhe com as várias comunidades religiosas, pelo menos não em termos dos pressupostos que as levam a ver isso como problema. Não é o motivo pelo qual o texto foi colocado aqui.  As questões que me (pre)ocupam é o que pode fazer que uma relação valha a pena e o que é preciso para construir uma relação que valha a pena. A questão de que na vida de uma pessoa só haja uma relação afetiva que dure para toda a vida não entra nisso, para mim, como questão fundamental.

Inicialmente o texto foi reproduzido na página “feijão“, que agora reúne uns quatro textos sobre relacionamento afetivos, todos tirados de outros blogs. Como a página “feijão” quase não tem sido visitada pelos navegantes, decidi ir colocando os textos que estão lá como postagens independentes, para dar mais visibilidade a eles. Não pedi permissão para reproduzir este texto, espero estar resolvendo isso ao dar a referência do site original. Havendo qualquer incômodo por parte dos autores daquele blog ou do autor e tradutor do texto (cujo nome não aparece), me prontifico a retirá-lo, a pedido deles.

Amor, como o ato da criação, é a coragem de criar espaço para a presença do outro.

Título original: Por trás do véu, Dov Greenberg

Sócrates, o grande filósofo grego, disse certa vez a um discípulo: “Meu conselho a você é que se case. Se encontrar uma boa esposa, será feliz; caso contrário, se tornará um filósofo.”

De fato, atualmente, temos muitos filósofos. Em nosso tempo, tem havido um aumento sem precedentes de relacionamentos rompidos. Nos Estados Unidos, estima-se que um em cada dois casamentos termina em divórcio. Famílias com apenas um dos pais dobraram nos últimos 20 anos. Apenas uma criança em duas terá pais que estavam casados quando ela nasceu e que permaneceram juntos até a criança crescer. (1)

Uma palestrante disse-me que durante anos ela tinha ido a escolas ensinar religião às crianças, e sobre “D’us nosso Pai”. Agora ela não pode fazer mais isso, porque muitas das crianças não entendem a palavra. Não a palavra D’us, mas a palavra “pai”.

Como um meteorito entrando no campo gravitacional da terra, o casamento e a família estão se desintegrando. O pior que podemos fazer agora seria entrar num debate sobre quem é culpado: indivíduo ou sociedade, afluência ou secularização. O que precisamos é imaginação, não recriminação; otimismo, não pessimismo. É aqui que a tradição mística judaica tem algo lindo e vital a dizer.

No capítulo inicial da Bíblia hebraica, onde se desenrola a história da Criação, a mística apresenta uma fascinante questão: Como, se D’us existe, o universo pode simultaneamente existir? D’us é infinito, D’us está em toda parte. Portanto, em qualquer lugar, existe tanto o finito como o infinito. Porém certamente o infinito supera tudo que seja finito. Simplesmente não há espaço para a matéria física se todo lugar está preenchido com a presença infinita de D’us. Como, então, existe um universo?

A resposta dos místicos é obrigatória. Para criar espaço para o universo, D’us, por assim dizer, iniciou um processo chamado tzimtzum, auto-contração ou retirada, criando um vácuo esférico; o espaço necessário para o mundo existir. Ao retirar Sua luz infinita, um mundo autônomo, independente, distinto de D’us, pode emergir. (2)

A conclusão? O universo é o espaço que o Autor do Ser cria para a humanidade por meio de um ato de retirada. Nenhum único ato indica mais profundamente o amor e a generosidade implícitos na Criação. (3)

Num estonteante paralelo, o mesmo se aplica aos relacionamentos humanos. (4)

No início da vida, não há consideração pelo outro. Um bebê recém-nascido não distingue entre si mesmo e o resto do universo. Conhece e se preocupa apenas com suas próprias necessidade. Ao chorar, está dizendo: “Quero a mamãe, quero ser alimentado, quero colo, quero que brinquem comigo, e se isso não for feito agora, vou arruinar sua vida.” Não há espaço para um outro. À medida que as crianças crescem e amadurecem, começam a sentir o outro como uma entidade separada. Começam a ter relacionamentos; começam a se importar com o outro. Este processo é essencial para um desenvolvimento sadio.

Como adultos, sabemos que para amar realmente, precisamos nos retirar de nosso “centro” (ego) e criar espaço para uma outra pessoa em nossa vida. Um relacionamento não é baseado em controle. Quando um parceiro domina o outro, exigindo que ele ou ela se conforme e suprima sua personalidade, a possibilidade de um relacionamento é extinta. O amor genuíno não apenas respeita a individualidade do outro, como também procura cultivá-la. Amor, como o ato da criação, é a coragem de criar espaço para a presença do outro. Quando o homem se afasta de si mesmo, atingindo o coração e a alma de outro ser humano, ele imita D’us, que escolhe suspender-Se para dar espaço ao outro. Stephen Hawking estava errado em seu livro Uma Breve História do Tempo. Não é por meio da Física teórica que abordaremos a compreensão da “mente de D’us”. É dando espaço a outra pessoa dentro de si mesmo.

Um rapaz e uma moça saíram para um encontro. Durante duas horas, ele falou sobre si mesmo, suas conquistas, sucessos e idéias. Então virou-se para ela e disse: “Chega de falar a meu respeito. Agora diga-me, o que você acha de mim?”

Existem duas palavras simples que ilustram essa noção mística de tzimtzum, “contração”. As palavras “solo” e “alma”. Representam dois opostos perfeitos: o material e o espiritual. A palavra “solo” representa o material. A palavra “alma” representa o espiritual. Quando a pessoa pensa apenas sobre “solo”, não cria espaço para outra pessoa. Mas quando pensa sobre “alma”, abre espaço para outra pessoa em sua vida. Está pronta para viver e amar com mais profundidade.

Esta idéia de tzimtzum se expressa na linda cerimônia judaica de casamento, conhecida como bedeken, ou “velar”. Antes da cerimônia da chupá, o noivo é escoltado até a sala onde a noiva está esperando, e cobre a face dela com um véu. Este costume tradicionalmente comemora o evento bíblico que ocorreu durante a cerimônia de casamento de Yaacov. A Torá relata que Yaacov viajou à casa de Laban. Ao chegar, encontrou a filha mais nova de Laban, Rachel, e se apaixonou por ela. Laban propõe um acordo: trabalhe sete anos para mim e eu a darei a você em casamento. Yaacov faz isso, mas na noite do casamento Laban substitui Rachel por Leah. Como a noiva estava velada, ele não percebeu que estava se casando com a moça errada. Yaacov descobriu o engano somente quando era tarde demais. Por fim, Yaacov aceitou seu destino e continuou com Leah. Mais tarde, porém, ele também desposou Rachel, a noiva que tinha escolhido.

A pergunta que surge é: se o velar nos lembra Yaacov e Leah, o costume não deveria ser o noivo descobrir o rosto da noiva para certificar-se de que está casando com a moça que escolheu?

A resposta é profunda e tocante. Leah e Rachel não são meramente duas irmãs morando na Mesopotâmia na primeira fase da Idade do Bronze. Elas também simbolizam duas dimensões de toda personalidade humana. Cada um de nós possui uma “Rachel” interior, bem como uma “Leah” interior. (5)

Rachel, a mulher linda, simboliza as características atraentes, charmosas e belas existentes em nosso cônjuge e em nós mesmos. O nome Rachel em hebraico significa “ovelha”, conhecida por sua cor branca e sua natureza amável e serena. (6)

Leah, um nome que literalmente significa “cansaço” ou “exaustão” (7), representa aqueles elementos em nós e em nosso cônjuge que são mais desafiadores. Leah, a irmã de “olho fraco”, era mais facilmente dada às lágrimas. Ela era emocionalmente vulnerável. Leah, enfraquecida pelas lágrimas e pela ansiedade, representa nosso conflito com a insegurança e com a tensão psicológica e espiritual.

Poucas pessoas podem ser definidas como “Rachel” ou “Leah”, exclusivamente. A maioria possui os dois componentes. Somos uma mistura de serenidade e tensão. Temos instintos compassivos mas devemos lutar contra instintos egoístas também. Temos luz, mas devemos lidar também com a sombra. Ambas são partes genuínas de nossa personalidade multi-dimensional. Rachel é a luz; Leah é a luta contra a escuridão.

Portanto, o drama que ocorreu no casamento de Yaacov, o Patriarca da nação judaica, acontece em todo casamento. Antes de se casar, você pensa que está desposando Rachel – a linda, inteligente, bondosa, sensível… a mulher dos seus sonhos. Na realidade, você vai descobrir que terminou com Leah, uma pessoa que também está em conflitos com tensão não resolvida.

Naturalmente, você ama Rachel, e rejeita Leah. Porém à medida que a vida passa você começa a descobrir que é exatamente a dimensão Leah de sua esposa que desafia você a transcender o seu ego e tornar-se a pessoa que é capaz de ser. Porque são as próprias falhas e imperfeições de seu cônjuge que permitem que você cresça em algo maior que si mesmo.

Este, então, é o segredo por trás do ato de velar a noiva. Quando o noivo vela sua noiva, está dizendo: “Eu amarei, prezarei e respeitarei não apenas o ‘você’ que se revela a mim, mas também aqueles elementos de sua personalidade que estão ocultos para mim. E quando me uno a você em casamento, comprometo-me a criar um tzimtzum, um espaço dentro de mim para a totalidade do seu ser – para toda você, para sempre.”

Isso, se realmente o fizermos, é o significado de Tzimtzum e tem o poder de banhar o alquebrado mundo atual na luz e espaço para a Divina Presença.

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Notas:
1 – Números extraídos de “Family Change and Future Policy”, de Kathleen Kiernan e Malcolm Wicks.
2 – Início de Eitz Chaim (Heichal Adam Kadmon, 1:2; Shaar HaHakdamot) e Mevo Shaarim, obras cabalistas de Rabi Isaac Luria (conhecido como o Arizal), transcritas pelo seu aluno Rabi Chaim Vital, Cf, Licutê Torá por Rabi Shneur Zalman de Liadi, adendo a vayicrá 51b-54d.
3 – Tanya, cap. 49.
4 – Veja Tanya ibid., citando uma declaração talmúdica (Bava Metziah 84a) sobre casamento: “O Amor Contrata a Carne”. Eis como Rabi Shneur Zalman declara a idéia: Veja também Homem de Fé no Mundo Moderno, pág. 157, por Rabi Joseph B. Soloveitchik.
5 – Bereshit cap. 29:16:31).6 – Ouvi isso pela primeira vez durante minha cerimônia de casamento do meu amigo Rabi Joseph Y. Jacobson. Veja também Luz Infinita (por Rabi David Aaron), págs. 37-38.
6 – Veja Licutê Torá por Rabi Shneur Zalman de Liadi (1745-1812) Parashá Emor pág. 38d. Veja também Yonas Alem por Rabi Menachem Azaryah de Fano (1548-1620) cap. 5, explicado em Licutê Sichot vol. 30 pág. 186.
7 – Mei Hashluach Parashá Vayetsê. Também Maamarei Admur HaZakan 5565 vols. 1 e 2.

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Sobre Ani

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