Saetas

“No puedo cantar,
ni quiero,
a este Jesús del madero,
sino al que anduvo
en la mar”
LA SAETA
Antonio Machado

Dijo una voz popular:
¿Quién me presta una escalera
para subir al madero
para quitarle los clavos
a Jesús el Nazareno?

Oh, la saeta, el cantar
al Cristo de los gitanos,
siempre con sangre en las manos,
siempre por desenclavar.

Cantar del pueblo andaluz
que todas las primaveras
anda pidiendo escaleras
para subir a la cruz.

Cantar de la tierra mía
que echa flores
al Jesús de la agonía
y es la fe de mis mayores.

¡Oh, no eres tú mi cantar
no puedo cantar, ni quiero
a este Jesús del madero
sino al que anduvo en la mar!

Antonio Machado foi um poeta espanhol nascido no sul do país, região da Andaluzia, na cidade de Sevilha, em 6 de julho de 1875. Morreu em 22 de fevereiro de 1939, logo após chegar à França, onde se refugiava ao final da Guerra Civil espanhola. É um dos escritores da chamada “Geração de 98”.

O poema La saeta tem relação com as procissões de Semana Santa que acontecem em toda Espanha, mas são mais famosas justamente na região da Andaluzia. As procissões vão carregando imagens que representam os passos da paixão de Cristo. Na cidade de Granada, a irmandade dos ciganos é a que leva a imagem do Cristo crucificado, “el Cristo de los Gitanos“.

A saeta é um cantar originário do folclore andaluz, que se entoa para as imagens carregadas pelas irmandades nas procissões de Semana Santa, normalmente no momento em que as procissões terminam e a imagem vai entrar de volta à sua igreja de origem. As saetas remetem a elementos da Paixão de Cristo.

O primeiro vídeo mostra uma saeta sendo entoada para o Cristo dos Ciganos, em Granada, na procissão de 2010. No segundo também se pode ouvir, com mais qualidade de áudio, mas sem imagens, uma saeta para o Cristo dos Ciganos (não, não se pode mais: o YouTube excluiu o vídeo). O poema La saeta, de Antonio Machado, remete a esse contexto.

Acrescentei aqui no post em 2013: a saída do Cristo dos Ciganos, em Granada (2012), e mais um vídeo com áudio meio ruim de uma saeta em Granada (amaldiçoando o YouTube por ter sumido com o melhor áudio que tinha no post).



Joan Manuel Serrat, compositor e cantor catalão, lançou em 1960 um álbum em homenagem a Antonio Machado. O poema La saeta foi um dos poemas musicados e cantados por Serrat no álbum. O ritmo e os instrumentos fazem lembrar as bandas que vão acompanhando as procissões espanholas de Semana Santa. O modo como Serrat entoa a melodia se parece com a forma como são cantadas as saetas. Divertido é ver vídeos das procissões atuais em Granada e ouvir que eles vão tocando a saeta de Machado-Serrat, embora ela diga que aquele Jesus da cruz que vai indo na procissão NÃO É o Jesus que eles querem cantar. Coisas da vida. Vai ver que foi mesmo algum tipo de subversão polifônica intencional. Ou então percebeu-se acertadamente que, dizendo que não queriam, Machaacabaram cantando bonitamente TAMBÉM aquele Cristo do “madero” carregado na procissão todos os anos. Só para me exibir um pouco: faz muitos anos, mas vi passar essa procissão, com esse cristo dos ciganos, em Granada. Foi quando me contaram do poema de Antonio Machado, foi a semente deste post.

Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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