Abuso emocional

Amor é bilateral. Relações amorosas não equivalem a nenhuma corrida de rally. Quando alguém começa a perseguir a pessoa amada, é preciso saber que existe algo de errado. Quem é correspondido não precisa “perseguir” e nem “insistir”. Amor não se mendiga. Não se implora.
~Amiga do Cafa~

O blogMeu caro amigo cafa conta, em  mais de cem posts, o envolvimento de uma jornalista com um cara que mostrou interesse por ela persistentemente, mas, depois de começarem a ter alguma coisa, tem comportamento ausente, instável e de pouca atenção. Muitos chamariam de abuso emocional a situação ambígua e permeada de mentiras descrita no blog.

O relato acaba funcionando como um alerta de como certas situações de sofrimento emocional vão sendo criadas. E esse alerta é bem útil, porque quem abusa emocionalmente geralmente tem alguns traços de personalidade em comum com psicopatas. A maioria de nós não está preparado para reconhecer esse tipo de pessoa, e isso aumenta o risco de entrar de gaiato numa bad trip interior. Os psicopatas têm sido descritos como pessoas destituídas de empatia, que perseguem sua satisfação pessoal sem preocupação com o bem-estar dos demais, nem capacidade de se colocar no lugar do outro. Assim, nem a reciprocidade nem o “não fazer aos demais o que você não quer que façam a você” existem como diretrizes éticas para eles. Como não têm esses limites, vão causando estragos de vários tipos: financeiros, profissionais, afetivos. Mas sua conduta daninha não é evidente para todos os que convivem com eles, muito pelo contrário, porque é frequente que tenham um comportamento extrovertido, agradável, cortês, sereno e sedutor nas relações sociais superficiais, além de serem geralmente muito inteligentes. Não é o que a maioria das pessoas têm como imagem de uma pessoa destrutiva ou abusadora. Mas, se pensamos bem, é lógico que sejam pessoas interessantes e sociáveis: como precisam ter a quem parasitar, é especialmente importante para eles terem grandes círculos de relações. Quanto mais desenvolverem poder de encantamento e sedução, melhor conseguirão quem faça por eles o que querem. Compartilhando alguns desses traços com os psicopatas, os abusadores emocionais têm potencializado seu poder de fogo quando seus procedimentos e padrões de comportamento são pouco conhecidos.

A canalhice afetiva descrita no blog da “Amiga do cafa” envolve o sexo, mas também existe canalhice afetiva num formato emocional  mais “platônico”. Essencialmente não importa. Saltando de sedução em sedução, os dois tipos têm este ponto em comum: alimentar ego e interesses próprios sem reciprocidade, com indiferença pelo bem-estar e as necessidades afetivas do outro. E cada um de nós deve se lembrar de alguma vez em que se meteu num desses barcos furados. Melhor aprender da felicidade e do amor que do sofrimento, na minha modesta opinião de quem não acha que o céu se ganha com martírios. Mas consolemo-nos com que pelo menos há uma lição para aprender aí: ser menos vulneráveis a seduções que nos pegam pela carência e pela vaidade, ter mais paciência e perspicácia ao estimar o caráter daqueles a quem damos acesso ao nosso mundo mais íntimo.

Flávio Gikovate discute relações afetivas de pouca reciprocidade em termos de personalidades “egoístas” vs. personalidades “generosas”, e define amor como prazer em estar perto e cuidar bem do parceiro amoroso. Dá toques interessantes, alguns abaixo:

Quem não se doa não ama. Quem se dedica e não obtém retorno aceita amar sem ser amado (o amado não se doa, logo não ama). Não é uma boa ideia.

Quando o generoso se dedica cada vez mais e mais, pensa que um dia finalmente será reconhecido e suas atitudes terão retorno. Qual o quê!

A atitude adequada quando alguém se dedica muito e não obtém retorno não é passar a dar cada vez mais. A postura construtiva é parar de dar.

O egoísta muda com muita dificuldade. Isso, em parte, por força da presença dos mais generosos que reforçam suas posturas oportunistas.

Acho que a expressão bíblica que trata de amar o próximo como a si mesmo tem a ver com conduta: atribuir aos outros e a nós iguais direitos.

O que ajuda a escolher um parceiro legal é ter boa autoestima, o que não tem a ver com amar a si mesmo e sim com um bom juízo de si mesmo.

Amor-próprio tem mais a ver com orgulho, com o fato de que temos o dever de nos preservar nas situações em que somos humilhados, ofendidos.

As histórias de amor contêm ternura, respeito e harmonia. Quem gosta da paixão mais do que da serenidade gosta mesmo é de filme de suspense.

Podemos satisfazer todos os desejos que não sejam nocivos a nós ou a terceiros. Nossa consciência funciona como um filtro que nos protege.

Homens e mulheres legais são os que são honestos e sinceros. Não usam mentiras para seduzir o outro com o intuito de atingir seus objetivos.

Para avaliar o caráter de uma pessoa, é preciso ver se é mentirosa: conversa-se bastante, volta-se a falar dias depois e verifica-se a coerência.

As pessoas com caráter mudam suas convicções, mas ao longo dos meses ou anos. O mentiroso é oportunista: altera seu discurso em poucas horas.

As dicas são úteis para as pessoas legais não perderem o foco e procurarem uma relação afetiva em que prevaleçam a satisfação e o bem-estar mútuos. Situações de abuso emocional vão debilitando a autoconfiança. Abusadores são hábeis em criar situações ambíguas e alimentar neuroses. A gente sente confusão, duvida de si mesmo, do que está vendo e percebendo, se pergunta se não está sendo impaciente, precipitado, retrógrado, imaturo, preconceituoso… egoísta! Abusadores são bons de lábia. Dizem que merecem o benefício da dúvida, posam de vítimas ofendidas, acusam de incompreensão, ingratidão, arrogância, incapacidade de aceitar pontos de vista diferentes do seu. Faz parte do seu show. Você se sensibiliza: não quer ser injusto nas suas posições. Mas devia duvidar menos. Quando você se pergunta se agiria daquela forma, as coisas ficam mais claras. Você percebe que tem preocupação com relação ao sentimento alheio. Percebe inclusive que aquela pessoa reage mal quando a coisa é com ela: não gosta de ser tratada como está tratando você. Vê também que, quando se apaixona, sente uma disposição natural a assumir o ser querido, estar em companhia, investir tempo, dar a conhecer socialmente seu afeto especial, afastar inseguranças da outra pessoa com relação ao que você sente. Não quer alimentar neuroses ou causar dor no outro. E quando toma esses cuidados, isso é simplesmente bom e alegre, está longe de ser um fardo. É o que o Flávio Gikovate diz: amor se define pelo prazer em paparicar o ser amado (evidentemente isso se aplica à amizade também). Enfim, se você oferece transparência, ternura, dedicação e respeito, por que não esperá-los da pessoa com quem se relaciona?

Infelizmente, talvez o  único caminho quando nos percebemos envolvidos numa situação de abuso emocional seja mesmo o distanciamento total. O distanciamento certamente será usado pelos abusadores para se fazerem de vítimas, mas nos deixa fora do alcance de sabotagens psíquicas e morais, e ainda pode servir de alerta simbólico a outras pessoas sobre o caráter do abusador. Como pode funcionar como um desmascaramento, os abusadores tendem a tentar evitar que você rompa ostensiva e radicalmente com eles, procuram manter você por perto, numa relação cordial.

A decisão de dar as costas ao abuso emocional pode demorar a chegar, em meio à confusão emocional que o abusador é hábil em criar, mas alivia, começa de imediato a restabelecer o bem-estar, mesmo que a alma ainda fique dolorida por algum tempo e a saudade demore a passar. Vale a pena ter paciência, lembrar que você já sobreviveu a outras perdas e hoje até parece que tudo foi vivido por outra pessoa. A alegria de ter sido capaz de fazer o autorrespeito prevalecer lava a alma. No mais, é acreditar que o tempo leva o sentimento ruim embora, que não é nada além de justo esperar reciprocidade das relações. A dor é apenas momentânea e, em compensação, constrói-se uma história digna. Histórias dignas são o que gente legal e honesta com os outros merece.

Vayas donde vayas, hazte respetar“, ouvi de uma cantora espanhola em 2009. Não vale a pena perder isso de vista. Respeito se conquista, entre outras coisas, dizendo um ‘não’ a quem se mostra incapaz de ter cuidado com o bem-estar emocional e psíquico do outro, a quem despreza a autonomia do outro para decidir sobre a própria vida, manipulando com falta de transparência, ambiguidades e mentiras. É isso. Não dá para ser menos. Neuras de quem já entrou nos “enta”? Pode até ser, mas tem psicólogo por aí dizendo que não é não, que é simplesmente maturidade emocional.

Ficam acima o link para o blog, aqui um vídeo e aqui uma página sobre abuso emocional , além da dica de um dos textos do Flavio Gikovate, reproduzido aqui neste blog, na página Feijão.

Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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7 respostas para Abuso emocional

  1. Valdir - Curitiba PR disse:

    Muito bacana, me ajudou muito…eu não conseguia explicar o que estava me acontecendo…fui até ridicularizado por amigos comuns…eu falava e ninguém entendia ou acreditava..eu era o louco….ufa!!!! Pena que a pessoa em questão continua impune… e bemquisto …..sacanagem cósmica viver essa situação. Aceitar e aprender, não tem mais nada a fazer…..as magoas vão passando…..

    • Ani disse:

      Bem-vindo, Valdir. É muito bom saber que o post ajudou, agradeço o comentário. Escrevi uma looonga resposta, mas desisti de colocar aqui, mando diretamente para o seu e-mail. Saudações solidárias. Shalom.

  2. Evelyn disse:

    Nossa me identifiquei muito, nós sempre achamos que psicopatas são somente os que assassinam, mas o desamor tb assasina diariamente! Obrigada

  3. Patricia disse:

    Obrigada pelo texto, caiu-me como uma luva. Estava ansiando por palavras assim. Vivi um namoro de 3 anos e meio em que fui ostensivamente abusada (emocionalmente e psiquicamente). Devia ter desconfiado, porque ele insistiu em namorar comigo logo após nos conhecermos numa festa, foi muito rápido. Tudo bate, todas as descrições. Fiquei muito confusa, porque eu, embora não estivesse à época disposta a namorar,acabei por me afeiçoar de vez pelo sujeito. Além do que eu estava carente. Não podia mesmo crer que ele fosse capaz de arquitetar tudo. No final, descobri-me no papel não de uma companheira, de um ser humano que merece respeito, que merece ser ouvido, acalentado, protegido, mas de um troféu a ser exibido, um “enchimento” usado para tapar o buraco emocional, uma muleta para a auto-estima claudicante dele. Tudo era do jeito dele, discordava de quase tudo o que eu dizia e pouco se importava com meus sentimentos, vontades. Chegava a me fazer passar fome, a ficar acordada sem querer, a ir a lugares que eu não queria, a vestir-me do jeito que ele queria. Isolou-me da minha família, tinha ciúmes doentios de minha filha, me chamava de nomes feios, ofendia minha família pelas costas em comentários sarcásticos e irônicos, ofendeu brutalmente minha filha (de outro relacionamento) chamando-a de nomes para mim. No começo se fez de bonzinho, mas depois mostrou quem era. Sempre usou de ironia, sarcasmo, tudo era culpa minha, chamava-me de ingrata e eu vivia a pisar em ovos. Tinha ataques de fúria com motivos bobos, insinuou traições, deu a entender que eu é quem devia sustentar o namoro financeiramente e depois que se envolveu comigo saiu do trabalho e passou a viver de brisa, por 2 anos e meio ficou desempregado porque quis, vivendo às custas da mãe, com quem ele vive às turras. Um homem de quase 40 anos com atitudes de um garoto mimado de 13. Maltrata a própria mãe na frente de todos. Gostava de se fazer superior e praticava a humilhação com os íntimos – principalmente comigo. Uma hora tratava-me bem, mas era só ficar contrariado por algum motivo ou por motivo nenhum e eu já não valia mais nada. Era tudo na base do morde-e-assopra. Eu ficava estupefata e paralisada. Confusa. Pedia-me perdão, mas da boca pra fora, depois tudo continuava. Ameaçava-me a todo instante de ir embora para outro país sem mim, já que ele odiava minha filha e sabia que eu nunca a abandonaria. Fez minha vida um inferno emocional e um mar de insegurança e dor. Adoeci fisicamente, fiquei 3 anos e meio sem trabalho, inútil e sem vontade nem ânimo de lutar. Até quem de tanta dor e de tantas ameaças, discursos ambíguos, tortura psicológica, humilhações, desprezo alternando com “bons tratos”, resolvi dar um basta. Não está sendo fácil. Ele me fez amá-lo, me abusou e agora estou aqui, vazia e destruída. Mas ao ler este texto, eu voltei a ter esperanças. mesmo que eu nunca encontre um amor, ao menos fiz prevalecer minha dignidade, De guerra já chega as do mundo. Pra que cultivar guerra na vida íntima? Eu fico meio lá meio cá de tempos em tempos, porque tudo é recente, mas eu sempre abro a internet à noite, leio textos falando de abuso emocional para não cair na tentação de voltar à ratoeira, à armadilha. Uma armadilha de olhos azuis que já muito me fiz chorar e desesperar, pois até em morte eu cheguei a pensar. OBRIGADA.

    • Ani disse:

      Patricia, bem-vinda ao blog e agradecimentos pelo comentário. Que essa fase passe logo. Tudo de bom. Um abraço.

    • nathanaela disse:

      passei por tudo isso até encontra-lo na cama com uma colega de trabalho… já pensei na morte muitas vezes

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