Meu cérebro, minhas ideias – Roselene Aparecida Taveira

Não leva na maldade não
Não lutamos por inversão
Igualdade é o “x” da questão, então aumenta o som!
Em nome das marias, quitérias, da penha silva
Empoderadas, revolucionárias
Ativistas, deixem nossas meninas serem super heroínas!
Pra que nasça uma joana d’arc por dia!
Como diria frida: “eu não me kahlo! ”
Junto com o bonde saio pra luta e não me abalo
O grito antes preso na garganta já não me consome
É pra acabar com o machismo
E não pra aniquilar os homens
Quero andar sozinha porque a escolha é minha
Sem ser desrespeitada e assediada a cada esquina
Que possa soar bem, correr como uma menina
Jogar como uma menina
Dirigir como menina, ter a força de uma menina
Se não for por mim, mude por sua mãe ou filha! 
(Respeita as mina – Kell Smith)

Meu cérebro, minha ideias
Roselene Aparecida Taveira

Carta Capital, 16 de novembro de 2017.

Por que o feminismo e o empoderamento da mulher incomodam tanto? Porque eles mudam a forma como a própria mulher se enxerga e subvertem a sua existência, destruindo muros e barreiras que a mantém encarcerada em sua vida média a ruim e em seu relacionamento morno a abusivo. E o outro polo da relação, por óbvio, se incomoda.

Incomoda-se pelo fato de não mais ser o centro do mundo social e cultural construído ao longo de séculos, refletido no seu quadrado doméstico, se incomoda porque ter uma mulher aprisionada pode muitas vezes lhe ser não apenas conveniente, mas circunstancialmente vantajoso.

Inicio o tema proposto por meio de pequenas abordagens masculinas, com as quais sei que muitas mulheres irão se identificar:

– Você poderia me emprestar o seu estudo sobre o tema?

– Você poderia me ajudar com uma palestra?

– Você poderia escrever algo para mim?

– Você me daria uma ideia?

– Você criaria um repertório para mim?

– Poderia me ajudar com os estudos?

– Poderia ler o que escrevi?

– Poderia pensar a respeito e me passar suas impressões?

Tais abordagens, quando corriqueiras em um relacionamento, podem revelar algo além de um mero interesse intelectual, mas uma apropriação do intelecto feminino pelo seu parceiro, amigo ou próximo.

O termo “bropriating”, conceito um pouco mais restrito do que o da apropriação intelectual, diz respeito a similar demonstração do machismo por meio da utilização de ideias de mulheres por homens.

Segundo a Fundação Tide Setubal esse é um dos termos criados para a sinalização de atitudes machistas, dentre outros, como manterrupting, gaslighting e mansplaining.

Bropriating nada mais é do que quando um homem se apropria de uma ideia criada e expressa por uma mulher e por ela leva os créditos.

É uma junção de “bro” (de brother, irmão, mano) e “appropriating” (apropriação). É algo que acontece muito em reuniões, quando um homem expressa uma opinião anteriormente dada por uma mulher e, ao contrário da primeira, é ouvido e aplaudido.[1] Podemos chamá-lo de apropriação intelectual, em seu sentido mais estrito.

Na sociedade contemporânea, as mulheres são menos ouvidas por suas ideias que os homens e isso facilita a ocorrência do evento.

manterrupting vem da junção das palavras man (homem) e interrupting (e interrupção), significa “homens que interrompem”. Isso ocorre quando a mulher não consegue concluir as frases e reflexões, dada a interrupção masculina. É mais do que comum esse tipo de abordagem e aqui podemos chamar de interrupção de fala masculina.

Já o mansplaining é a soma de man (homem) e explaining (explicar). Ocorre quando o homem tenta explicar de forma didática algo que a mulher já conhece ou quando tenta demonstrar para a mulher que está errada, quando está correta.

É o típico “desenhar” masculino, na tentativa de demonstrar a sua pretendida superioridade intelectual em relação a algum tema. Podemos aqui traduzir como explicação masculina.

Todas essas condutas revelam o machismo disseminado nos diversos meios, especialmente acadêmicos, nos quais as mulheres ainda sofrem discriminação, seja na ocupação dos lugares de fala, seja na explicação de suas ideias e estudos.

Aqui, não obstante, trataremos de uma face perversa do machismo que é a de apropriação masculina das ideias femininas, dando destaque a relacionamentos abusivos nos quais essa apropriação ocorre.

Não podemos nos esquecer de que um relacionamento abusivo não se limita àquele em que a mulher é agredida moralmente ou fisicamente por um homem, seja seu pai, marido, companheiro, amigo, etc.

Esse é gravíssimo e criminoso. Aqui utilizamos um termo mais amplo para mencionar que é abusivo um relacionamento de apropriação intelectual, é abusivo um relacionamento em que não há troca, mas apenas favorecimento circunstancial.

Ainda que implícito, esse abuso mina a autoestima da mulher quando aos poucos revela que a intencionalidade por detrás da relação instituída é de obter uma vantagem.

Quantas mulheres não ouviram homens repetindo as suas ideias?

Quantas vezes nos colocamos em relacionamentos desse tipo e aos poucos percebemos que o nosso intelecto está sendo apropriado por uma figura masculina que, certamente será mais ouvida e valorizada por ele?

Essa figura não parará por aí. Além de disseminar as ideias da mulher, tentará se apropriar de seus amigos, de seu prestígio, tentará reduzir a sua capacidade de leitura de si mesma, diminuindo a percepção dos fatos e da relação.

Há algo importante a ser dito: sabemos que vivemos em um sistema em que as formas de opressão são refletidas no seio das relações sociais.

O sistema capitalista apropriou-se das diversas formas de exploração e opressão de um ser por outro e criou tantas outras, legitimando-se e sobrevivendo em razão delas. Também sabemos que vivemos em uma sociedade patriarcal.

Fomos inseridas na história da humanidade como adornos dos grandes acontecimentos: amantes, esposas, irmãs, mães. A nossa capacidade intelectual nunca foi valorizada, talvez por receio, talvez pela percepção do mundo que colocou a mulher como o outro ser.

Nossas ideias foram exploradas, disseminadas por homens, sem os devidos créditos. Fomos esquecidas nos rodapés de poucos livros científicos e históricos. Fomos julgadas por nossas opiniões e ideias muito mais veementemente que homens.

Fomos tratadas pelos legisladores como algo não humano, mas com certa humanidade, algo diferente da casta superior humana masculina. Onde estas mulheres estavam? Em seus lugares, negados por aqueles que registraram a história, homens.

Como isso tudo começou?

Já mencionamos, no texto de estreia da coluna que a linguagem é um instrumento de dominação, como a ausência da palavra sororidade no vocabulário português, assim como diversas outras que não possuem o seu correspondente no feminino, limitando-se os estudiosos da língua portuguesa em defender raízes semânticas e regras gramaticais, sem se aprofundar nos motivos pelo qual os fundadores da língua assim o fizeram.

Do mesmo modo como impor a outros grupos étnicos e sociais a sua própria cultura também é uma forma de silenciar, calar, bem característico da dominação eurocêntrica e patriarcal, a exemplo do genocídio de índios e escravização dos negros no Brasil, iniciados na época de nossa colonização, que causaram e causam sofrimento e humilhação a esses povos, com graves consequências na estrutura da nossa sociedade, sentidas até os dias de hoje ainda que com outra roupagem [2] [3].

E não foi diferente com as mulheres. Para tanto, recorro à Simone de Beauvoir quando afirma que o fato de a mulher ser o “Outro” contesta todas as justificações que os homens lhe puderam dar: eram-lhe evidentemente ditadas pelo interesse. “Tudo o que os homens escreveram sobre as mulheres deve ser suspeito, porque eles são, a um tempo, juiz e parte” escreveu, no século XVII, Poulain de la Barre. Em toda parte e em qualquer época, os homens exibiram a satisfação que tiveram de se sentir os reis da criação.

“Bendito seja Deus nosso Senhor e o Senhor de todos os mundos por não me ter feito mulher”, dizem os judeus nas suas preces matinais, enquanto suas esposas murmuram com resignação: “Bendito seja o Senhor que me criou segundo a sua vontade’.

Entre as mercês que Platão agradecia aos deuses, a maior se lhe afigurava o fato de ter sido criado livre e não escravo e, a seguir, o de ser homem e não mulher.

Mas os homens não poderiam gozar plenamente esse privilégio se não houvessem considerado alicerçado no absoluto e na eternidade: de sua supremacia procuravam fazer um direito.

“Os que fizeram e compilaram as leis, por serem homens, favoreceram seu próprio sexo e os jurisconsultos transformaram as leis em princípios, diz Poulain de la Barre. Legisladores, sacerdotes, filósofos, escritores e sábios empenharam-se em demonstrar que a condição subordinada da mulher era desejada no céu e proveitosa à Terra. [4]

Tanto que o próprio filósofo britânico John Stuart Mills, defensor do utilitarismo, ainda no século XIX denunciava que o atraso na concessão de direitos civis às mulheres no mundo ocidental gerava prejuízos à democracia em face do tardio reconhecimento à plena cidadania.

Por isso há quem defenda que em países com deficit democrático como o Brasil, as consequências se arrastam até os dias atuais, na medida em que, compelidas pelo patriarcado a cuidar mais do ambiente privado, e sendo responsáveis, quase que exclusivamente, pela educação das novas gerações têm dificuldades de repassar um ensinamento que lhe é historicamente relegado, a alteridade no espaço público.

O que explica, em muito, as dificuldades das mulheres na vida pública, nos múltiplos espaços de produção e reprodução dos saberes, como a política, universidades e produção literária, para citar alguns exemplos, na medida em que se exige delas comportamentos acadêmicos como pesquisa e argumentação a partir do olhar masculino.

No filme Grandes Olhos, de Tim Burton, a história real da pintora Margaret Keane é contada. Seus belos trabalhos que retratavam figuras humanas com grandes e intensos olhos eram vendidos como se fossem de seu marido Walter Keane. Em algum momento de sua vida, Margaret irá despertar. Até lá, viveu aprisionada por seu marido que recebia os créditos por sua genialidade.

E quantas mulheres geniais não foram apagadas da história da humanidade deixando os créditos de seus intentos a homens? Margaret Knight, Alice Guy, Lise Meitner, Jocelyn Bell Burnell, Anna Arnold Hedgeman, tantas outras.

Quem somos e o que fizemos pela história da humanidade?

Precisamos falar sobre essas mulheres, reescrever as suas histórias e não deixar que as nossas sejam esquecidas ou contadas por homens. Parte disso requer que assumamos e divulguemos nossas ideias e reflexões em todos os meios. Requer que não nos submetamos a relacionamentos abusivos e que não deixemos que a apropriação de nossas ideias apague as nossas capacidades e individualidades.

Precisamos assumir o protagonismo de nossas histórias, como integrantes das histórias da humanidade, ocupando o espaço que ainda nos é negado na disseminação das ideias, da ciência e dos pensamentos. Não podemos nos submeter. Não mais.

Identificar uma condição de submissão muitas vezes requer um exercício diário de autorreflexão e especialmente de sororidade.

As mulheres precisam de atenção diária e servir de apoio e alerta umas às outras. Inclusive a filósofa e feminista Djamila Ribeiro tem tratado sobre o tema em suas redes sociais, ressaltando as frequentes e múltiplas tentativas de silenciar sua produção de conhecimento, em face da grande notoriedade que passou a ter, não só por conta do acesso às modernas formas de comunicação, mas principalmente por ser mulher e negra.

Agrava-se ao fato de que, em qualquer sociedade em crise, os direitos dos mais vulneráveis, dentre os quais ainda se encontram as mulheres, são ainda mais ameaçados, o que nos serve de alerta para que nos mantenhamos sempre vigilantes. E não custa lembrar, os atos de silenciamento e apropriação intelectual não são exclusividade de homens com discursos de direita, ao contrário partem também de intelectuais de esquerda.

É chegada a hora de assumirmos a propriedade absoluta de nossos corpos e nossas ideias, mesmo que para isso tenhamos de lutar diariamente contra a proibição do aborto, a ditadura econômica da beleza e da perfeição, as ideias e fundamentos religiosos machistas, a política de aniquilação dos direitos da mulher e da criança, a ausência de espaços para nossas vozes e nossos olhares e a apropriação intelectual de nossas ideias.

Roselene Aparecida Taveira é Juíza do Trabalho do TRT da 15ª Região, membra da Associação de Juízes pela Democracia, especializada em Direito do Trabalho e Seguridade Social pela USP. Escreve na coluna Sororidade em Pauta.


[1] Fontes: Nexo Jornal, Thing Olga, The New York Times, Papo de Homem

[2] https://pcb.org.br/portal2/11399

[3] https://www.cartacapital.com.br/sociedade/atlas-da-violencia-2017-negros-e-jovens-sao-as-maiores-vitimas

[4] BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo: fatos e mitos. 3 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.

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